Há paisagens que pedem uma segunda olhadela. As Buracas do Casmilo são uma delas.
À primeira vista, as paredes de rocha esburacada que pontuam o vale perto da aldeia do Casmilo, no Maciço de Sicó, parecem o resultado de algo violento — uma erosão abrupta, uma explosão antiga, um capricho geológico sem explicação. A explicação existe, e é mais fascinante do que qualquer capricho.
O que se vê não são simples cavidades. São entradas de grutas — bocas abertas para túneis subterrâneos cujo teto desabou ao longo de milénios, deixando apenas o vestígio da entrada na rocha. A culpa, se assim se pode chamar, é do calcário.
A rocha dominante nesta região dissolve-se lentamente com a água que se infiltra no solo, criando cavidades que crescem, se aprofundam e, eventualmente, cedem.
O que ficou de pé foi este alinhamento de aberturas horizontais na Serra, com profundidades que chegam às dezenas de metros — paisagem sem paralelo em Portugal.
As grutas não foram sempre apenas geologia. As investigações feitas no local encontraram pinturas e materiais que confirmam a presença humana desde o paleolítico e o calcolítico. Gente que usou estas cavidades como abrigo, como lar improvisado, como proteção contra o mundo lá fora.
Em tempos medievais, as grutas continuavam a servir de refúgio ocasional. A história da humanidade, em versão muito condensada, cabe nestas paredes de pedra.
Há também a lenda — e seria estranho que não houvesse. Diz-se que nas buracas está escondido ouro mouro, trazido do castelo de Soure numa altura em que os mouros recuavam para sul pressionados pelos cristãos. O ouro nunca apareceu. Mas ainda hoje há quem chegue ao Casmilo com outros planos além da contemplação.
A maioria visita por duas razões mais prosaicas: a paisagem, que é de facto única, e a possibilidade de praticar escalada, rappel, orientação, montanhismo ou espeleologia — o lugar é ponto de encontro habitual para quem vive estas disciplinas.
A rocha calcária e o relevo acidentado fazem do Casmilo um destino natural para os que preferem o contacto físico com a paisagem ao simples olhar.
Chegar é simples: a partir de Condeixa-a-Nova, segue-se a IC2 para sul, depois em direção à Arrifana e sobe-se o monte até à aldeia. Para quem prefere ir a pé, o trilho PR2 CDN atravessa a zona.
A versão completa tem quase 30 quilómetros, com início nas ruínas de Conimbriga. Mas existe uma variante circular de quatro quilómetros, com início na aldeia, de dificuldade fácil, que passa pelas buracas e permite apreciar a paisagem ondulada de oliveiras e pastos sem grande esforço. Na Primavera, quando tudo floresce, o percurso ganha outra cor.
O Casmilo não aparece nos guias mais conhecidos. Fica perto de Condeixa, a caminho de Coimbra, e é daqueles lugares que se visitam quase de passagem — e dos quais não se consegue parar de falar depois.








