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Alpedrinha: chama-lhe a “Sintra das Beiras” e não faltam razões para isso

Alpedrinha, na Serra da Gardunha, foi sede de concelho, berço de um cardeal e lar do primeiro teatro das Beiras. Uma vila do Centro com história maior do que o tamanho.

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Mar 7, 2026
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Alpedrinha: chama-lhe a "Sintra das Beiras" e não faltam razões para isso

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Alpedrinha não pede muito ao visitante. Pede atenção — o tipo de atenção que se dá a um lugar que já foi muito e hoje vive com a memória desse passado sem alarde. Fica na encosta sul da Serra da Gardunha, a cerca de 500 metros de altitude, no concelho do Fundão. Tem hoje pouco mais de mil habitantes. Já teve sete mil.

Esse número diz tudo sobre o que esta vila foi. Sede de concelho até ao século XIX, Alpedrinha acumulou ao longo dos séculos uma densidade de poder, riqueza e cultura rara para uma povoação desta dimensão.

Os solares e casas senhoriais que ainda hoje pontuam as suas ruas — a Casa da Comenda, o Solar dos Pancas, a Casa do Pátio, as Casas do Cardeal, o Solar dos Britos — são o testemunho em pedra das famílias que aqui viveram e decidiram. Não é por acaso que lhe chamam a Sintra das Beiras.

Foi aqui que nasceu o cardeal D. Jorge da Costa, figura central na assinatura do Tratado de Tordesilhas e fundador da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Chegou a ser eleito Papa — e recusou.

Manteve a sua influência junto do Vaticano de outra forma, essencial para as ambições da coroa portuguesa. É o tipo de figura que uma aldeia pequena não esquece.

O primeiro teatro das Beiras foi construído em Alpedrinha — 200 lugares sentados, 20 camarotes. O edifício ainda existe e hoje serve de espaço de ensaio à companhia de teatro local. Detalhe que diz muito sobre a continuidade improvável deste lugar.

O grande monumento é o Palácio do Picadeiro, cuja construção começou no século XVIII por ordem de um importante magistrado e nunca chegou a ser concluída. Passou por várias mãos, acumulou histórias e lacunas, e é hoje um museu.

É lá que se podem ver os famosos móveis embutidos de Alpedrinha — arte de marcenaria que teve fama nacional. O entalhador de D. Carlos I era daqui. A tradição está a desaparecer, como tantas outras, mas o museu guarda o que ficou.

Pelas ruas da vila distribuem-se fontes. A mais conhecida é o Chafariz Real, mandado construir por D. João V, com três bicas que a lenda distribuiu por categorias: a da direita para as mulheres casadas, a do meio para as solteiras, a terceira para as bruxas. Não há forma de verificar qual é qual — o que talvez seja o ponto.

Em setembro, na terceira semana do mês, a vila anima-se com a festa da transumância. Os rebanhos voltam a passar por Alpedrinha a caminho de Idanha, como faziam antigamente antes de os invernos mudarem os hábitos. É uma memória encenada, sim — mas encenada com afeto e com vontade de não deixar perder o fio.

Quem ficar com vontade de ver mais pode explorar os arredores: Monsanto, Castelo Novo, Idanha-a-Velha, as aldeias de montanha de Alcaide e Alcongosta. A Serra da Gardunha oferece ainda o trilho circular do Caminho do Anjo da Guarda, seis quilómetros de dificuldade moderada que passam pela vila e entram pela serra acima.

Alpedrinha não vai impressionar quem procura movimento e espectáculo. Mas quem chega com tempo e olho atento encontra uma vila que viveu muito, guardou o essencial e ainda recebe bem.

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