Na encosta da Serra da Lousã, no concelho de Figueiró dos Vinhos, Casal de São Simão cabe quase numa única rua. Casas de xisto alinhadas, portas baixas, escadas exteriores em pedra, uma fonte onde a água corre sem parar. É o tipo de aldeia que se percorre em dez minutos — e onde se fica muito mais tempo do que se planeou.
A aldeia e o que a recuperação respeitou
Casal de São Simão quase ficou desabitada no século XX, como tantas outras aldeias serranas da Lousã. A recuperação começou com iniciativas locais e com o impulso do projeto Aldeias do Xisto — alojamentos de turismo rural, um restaurante instalado numa antiga casa recuperada, uma loja de produtos regionais. A associação Refúgios de Pedra dinamiza atividades culturais e ambientais ao longo do ano.
O que distingue Casal de São Simão de outras aldeias recuperadas é a proporção. Não cresceu para além do que era — manteve a escala original, o xisto na cor certa, as ruelas com a largura que tinham.
Ao fim da tarde, quando os visitantes saem, a rua volta a pertencer aos residentes e ao som da água na fonte. Essa qualidade de silêncio não se planeia — resulta do facto de a aldeia ser mesmo pequena.
Os passadiços e as fragas
A poucos minutos abaixo da aldeia, os Passadiços das Fragas de São Simão acompanham a ribeira de Alge durante 1,7 quilómetros até ao miradouro e à praia fluvial.
O percurso atravessa encostas com vegetação densa onde subsistem vestígios de laurissilva continental — um tipo de floresta húmida que praticamente desapareceu do território português continental. Reconhece-se pela humidade constante do ar, pelos fetos grandes, pela sombra espessa que a copa fecha mesmo em pleno verão.
A caminhada demora cerca de 45 minutos, mais com paragens para fotografar o vale encaixado entre fragas quartzíticas que a ribeira foi abrindo ao longo de séculos.
No final fica a Praia Fluvial das Fragas de São Simão — água encaixada em rocha, com pequenas lagoas naturais formadas antes do caudal seguir para o Zêzere.
Nos meses quentes é um dos refúgios mais procurados da região, e com razão. A sombra das paredes de quartzito mantém a temperatura da água abaixo do que o sol de agosto justificaria.
O trilho e as aldeias em redor
O PR1 FVN — Caminho do Xisto de Casal de São Simão — percorre cerca de cinco quilómetros por antigos caminhos rurais e levadas que alimentavam moinhos.
A dificuldade é baixa a moderada e o percurso passa por estruturas que explicam como a serra foi organizada agrariamente durante séculos — levadas que distribuíam a água pelos campos, açudes que a controlavam, moinhos que a convertiam em força de trabalho.
Ferraria de São João e Gondramaz ficam a curta distância, também recuperadas e também integradas na rede das Aldeias do Xisto. Dornes, com a sua península fluvial na albufeira do Zêzere, fica um pouco mais longe mas é uma extensão natural de qualquer visita à região.
Casal de São Simão não exige muito tempo — e por isso recompensa quem decide ficar. Uma tarde, uma noite, um fim de semana com a serra em redor e a ribeira lá em baixo. A rua é uma só, o xisto é o mesmo de sempre, e a fonte não para. É suficiente.






