No município de Fornos de Algodres, no centro de Portugal, existe uma aldeia cuja história começa com uma transação que a memória local ainda comenta com algum espanto: em 1146, D. Afonso Henriques vendeu estas terras a Egas Gonçalves por um cavalo e uma mula.
Quinze anos depois, Egas Gonçalves doou o lugar ao Mosteiro Cisterciense de São João de Tarouca — o que significa que o primeiro proprietário privado as cedeu de graça ao fim de pouco tempo.
Durante quase um século, os habitantes pagaram renda à Ordem pela utilização das casas e terrenos. Em 1243, conquistaram autonomia. E logo a seguir construíram quatro capelas nos pontos cardeais da aldeia, para assegurar a proteção dos santos — um gesto que diz algo sobre a relação desta comunidade com o território que finalmente controlava.
O Castro de Santiago e o que havia antes de tudo isto
A 612 metros de altitude, o Castro de Santiago tem dois penedos graníticos que durante a Idade do Cobre foram transformados em recintos fortificados. A vista daí sobre o sopé da Serra da Estrela é ampla — e o Castro é a prova mais clara de que Figueiró da Granja existia, em alguma forma, muito antes de D. Afonso Henriques ter decidido vendê-la por dois animais.
A igreja, a talha e o museu de arte sacra
A Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Graça foi construída por volta do século XII, em estilo românico, simples e primitivo.
O que existe hoje resulta de uma reconstrução dos séculos XIX e XX — pouco resta do aspeto original, mas o interior tem talha dourada que cobre boa parte dos elementos decorativos com a densidade característica das intervenções barrocas tardias.
O Museu Paroquial de Arte Sacra, instalado na Fábrica da Igreja Paroquial, reúne o que foi sendo recolhido da sacristia e da casa paroquial ao longo dos anos: paramentos litúrgicos, livros, crucifixos, imagens e estátuas em madeira.
É o tipo de coleção que não tem peças de museu nacional mas que conta uma história local com uma precisão que os grandes museus raramente conseguem.
O pelourinho manuelino e o fontanário de 1905
O pelourinho data do século XVI e tem três metros de altura — coluna octogonal em granito que se alarga num segundo corpo em losango com escudo manuelino e esfera armilar no topo. É um dos elementos mais trabalhados da aldeia e um dos raros exemplares manuelinos desta dimensão no interior da Beira Alta.
O fontanário foi construído em 1905, com duas bicas e tanque retangular. Não tem a história do pelourinho, mas tem a função que durante décadas organizou o quotidiano da aldeia — e a inscrição da data que alguém considerou importante registar na pedra.
Figueiró da Granja é uma aldeia de montanha no centro de Portugal que a maioria das pessoas não conhece. Foi vendida por dois animais, doada quinze anos depois, e a comunidade que ali vivia esperou um século para ter a sua própria autonomia.
Quando a conseguiu, construiu quatro capelas nos limites da aldeia. É uma história de resistência discreta — e a pedra que ali existe ainda conta boa parte dela.







