No concelho de Sernancelhe, numa aldeia chamada Lugar da Lapa, existe um santuário construído à volta de uma gruta — não ao lado nem em frente, mas literalmente integrado na rocha, com a grutinha original incorporada no interior do edifício.
A lógica é a mesma da Lapa de Santa Margarida na Arrábida ou do Dólmen de Alcobertas: o lugar era sagrado antes de qualquer construção, e a construção veio envolver o que já existia em vez de o substituir.
O lema do santuário está gravado na pedra de entrada: Só passa quem não peca. É uma passagem estreita. A frase não é decorativa.
As freiras de Sismiro e os 500 anos
A lenda fundadora situa-se no ano de 982. As tropas do general muçulmano Al Mansur atravessavam a Serra da Pêra em direção a sul, colocando a Beira Alta em alvoroço.
Ao passarem pela região de Aguiar da Beira, confrontaram o Convento de Sismiro — um convento feminino. Algumas freiras foram assassinadas. Outras fugiram pelos penhascos, levando consigo uma imagem de Maria escondida nas vestes.
Encontraram abrigo numa lapa. Esconderam a imagem. Não se sabe o que aconteceu às freiras — mas a figura ficou na gruta durante 516 anos.
Joana, a pastorinha muda
Em 1498, uma rapariga de 12 anos chamada Joana, que tinha nascido muda, entrou na gruta para se abrigar do frio enquanto guardava as ovelhas. Encontrou a imagem, escondeu-a na cestinha entre flores, e nos dias seguintes a figura brilhava para ela enquanto a escondia de olhares estranhos.
Até que se esqueceu de levar as ovelhas aos pastos certos. A mãe — “aldeã robusta e de pelo na venta”, como a lenda a descreve — estava farta do alheamento da filha e foi à cestinha. Encontrou a imagem e atirou-a ao lume.
Nesse momento, Joana — que nunca tinha falado — gritou. O braço da mãe caiu inanimado. A imagem nas chamas ficou intacta. Joana falou, o braço da mãe recuperou o movimento, e os gritos de “Milagre!” chegaram ao abade da aldeia.
A imagem que recusou ficar na Igreja
O abade levou a imagem para a Igreja Matriz de Quintela. Desapareceu. Apareceu de volta na gruta. Voltou a ser levada para a igreja. Voltou a desaparecer e a aparecer na lapa. O fenómeno repetiu-se vezes suficientes para que a mensagem fosse considerada clara: a imagem queria ficar onde estava.
Construiu-se primeiro um oratório na gruta. Depois umas barracas para apoio aos peregrinos. Depois algumas casas. A aldeia cresceu à volta do culto, organicamente, como acontece nos lugares onde a devoção precede a urbanização.
No século XVI, os padres jesuítas transformaram o oratório numa igreja e integraram a grutinha original no interior do edifício — onde ainda está.
A romaria e a Feira Aquiliniana
O Lugar da Lapa recebe romaria três vezes por ano. É também aqui que acontece a Feira Aquiliniana — um evento anual de promoção dos produtos da região, que deve o nome a Aquilino Ribeiro, o escritor natural de Sernancelhe que usou estas serras como cenário de parte da sua obra.
A gastronomia da região tem queijos artesanais, enchidos e cabrito — pratos que os restaurantes da aldeia servem com a regularidade de quem os cozinha desde sempre. O pão, feito nas padarias locais, é outro dos motivos para não apressar a saída.
A passagem estreita com o lema gravado na pedra é o detalhe mais fotografado do santuário. Mas o que fica, depois de percorrer o interior e chegar à grutinha onde a imagem regressou 516 anos depois de ter sido escondida, é outra coisa — uma sensação de continuidade que o espaço físico torna palpável.
A lapa estava lá antes das freiras, esteve lá durante os 516 anos de espera, e ainda está, integrada numa igreja, com velas acesas à sua volta.







