No concelho de Ponte de Lima, as Lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos revelam um Minho menos óbvio. Aqui, o reflexo dos carvalhos nas águas paradas cria a sensação de tempo suspenso, enquanto os passadiços de madeira atravessam zonas alagadas onde o coaxar das rãs e o voo das garças dominam o cenário.
Este mosaico de lagoas, veigas e floresta de ribeira sobreviveu a décadas em que as zonas húmidas eram vistas como entraves ao progresso. O que hoje é reserva natural esteve, nos anos 70, perto de ser drenado.
A vitória silenciosa da água
Durante esse período, existiram planos concretos para eliminar as lagoas através de canais artificiais, com o objetivo de expandir a área agrícola.
O que travou o processo foi uma constatação técnica: estas bacias funcionavam como sistemas naturais de retenção de cheias. Sem elas, as águas do rio Lima poderiam provocar inundações severas nas aldeias vizinhas.
Foi um momento decisivo em que a lógica hidrológica prevaleceu. Pela primeira vez na região, a preservação ecológica impôs-se também como medida de segurança pública.
A manutenção da unidade territorial foi facilitada pela presença do Solar de Bertiandos. A família proprietária conservou o conjunto fundiário ao longo de gerações, evitando a fragmentação excessiva.
A gestão tradicional, baseada em caça, pesca e uso regulado dos recursos, antecipou princípios que hoje associamos à sustentabilidade.
Modernidade com limites
A travessia da autoestrada A27 pelo vale constituiu outro momento crítico. Para reduzir o impacto, foram criadas passagens específicas para fauna e sistemas de monitorização de ruído — uma tentativa de conciliar infraestrutura moderna com ecossistema sensível.
O Rio Estorãos, que alimenta o sistema lagunar, continua a ser o eixo vital da paisagem. Ao longo das margens, amieiros e salgueiros estruturam a floresta ribeirinha, criando corredores verdes que abrigam aves, anfíbios e insetos raros.
Percorrer devagar
Hoje, os passadiços permitem circular por áreas que antes eram acessíveis apenas a pastores e lavadeiras. A partir do Centro de Interpretação Ambiental, os percursos distribuem-se pelo coração da zona húmida.
Nas veigas, é frequente observar gado barrosão a pastar, mantendo práticas agrícolas tradicionais que contribuem para o equilíbrio do habitat. O contraste entre a atividade humana moderada e a vida selvagem reforça a ideia de coexistência.
Um luxo contemporâneo
Bertiandos não impressiona pela monumentalidade, mas pela delicadeza. É um território onde a terra se mistura com a água e onde o silêncio é parte integrante da experiência.
Num país marcado por praias e montanhas, estas lagoas lembram que as zonas húmidas também são património. Preservá-las é garantir que o vale do Lima continua a refletir, nas suas águas imóveis, uma memória que quase se perdeu — e que hoje se afirma como exemplo de regeneração e equilíbrio.







