O mapa da criminalidade em Portugal para 2025 foi divulgado esta semana – e os números contradizem várias ideias feitas sobre onde e como o crime acontece no país.
A leitura por taxas por mil habitantes, em vez de valores absolutos, muda significativamente o retrato. E o que emerge não é um problema urbano nem rural: é um padrão que segue o turismo, a mobilidade e a atividade económica.
Albufeira, Sines e Porto no topo – Lisboa só em 11.º
Na taxa total de criminalidade por concelho, o pódio pertence a Albufeira (86,0 crimes por mil habitantes), Sines (70,0‰) e Porto (64,9‰). Seguem-se Vila do Bispo, Avis, Loulé e Aljezur, todos acima dos 58‰.
Lisboa, que domina habitualmente o imaginário da insegurança urbana, surge apenas em 11.º lugar, com 57,0‰. A capital tem mais crime em valores absolutos — mas quando se ajusta à população, fica atrás de concelhos que muita gente não esperaria encontrar nesta lista.
O contraste mais expressivo é entre Albufeira (86,0‰) e os concelhos de menor incidência, onde a taxa fica abaixo dos 15‰. A diferença é de seis para um.
Crimes contra pessoas: o interior também aparece
Nos crimes contra a integridade física, o topo é ocupado por Ribeira Grande (12,7‰) e Albufeira (12,1‰), seguidos de Sines, Vila do Bispo e Ferreira do Alentejo. A lista inclui ainda Idanha-a-Nova e Manteigas — concelhos de baixa densidade e pouca ligação ao turismo de massas.
Este padrão contraria a associação automática entre violência interpessoal e grandes centros urbanos. A sazonalidade, os contextos locais e as práticas de registo também moldam estes números — e devem ser tidos em conta na leitura.
Furtos: aqui sim, o padrão é mais previsível
No furto por esticão e na via pública, a distribuição aproxima-se mais do esperado. Lisboa lidera com 3,0‰, seguida por Albufeira (2,7‰) e Porto (2,5‰). A Área Metropolitana de Lisboa concentra vários concelhos no top 10: Barreiro, Almada, Montijo, Moita e Seixal.
Este tipo de crime depende da densidade de pessoas no espaço público — e os dados confirmam-no.
No furto de veículos, o Porto surge destacado com 12,7‰, mais do dobro do segundo classificado, Vila do Bispo (11,7‰). Albufeira, Lisboa e Matosinhos completam os cinco primeiros. A lógica é semelhante: circulação automóvel intensa, presença turística e acessibilidade rodoviária.
Condução sob álcool: o interior tem números que surpreendem
Na condução sob efeito do álcool acima de 1,2 g/l, o topo é dominado por concelhos do interior e de baixa densidade. Castanheira de Pêra lidera com 15,2‰, seguida por Sines (10,7‰) e Borba e Alpiarça (9,9‰ cada).
A explicação está na estrutura destes territórios: dependência do automóvel, ausência de transportes públicos e padrões culturais de consumo. O mesmo raciocínio aplica-se à condução sem habilitação legal, onde Aljezur lidera com 9,1‰ — um indicador que funciona como proxy de exclusão territorial e dificuldade de acesso a mobilidade legal.
O que os dados realmente mostram
A conclusão mais robusta destes números é que a criminalidade em Portugal não é homogénea — nem segue uma divisão simples entre litoral e interior, urbano e rural.
O que os dados mostram, de forma consistente, é uma associação entre crime e territórios com alta mobilidade, forte presença turística e intensa atividade económica. Albufeira, Sines e Porto não estão no topo por acaso: concentram simultaneamente fluxos de pessoas, bens e dinheiro — os fatores que historicamente atraem mais crime.
Lisboa, apesar de ser a maior cidade do país, dilui esses números numa população muito maior. O que não significa que o problema seja menor — significa que o risco individual, medido por habitante, é mais baixo do que os títulos habituais sugerem.
Para quem toma decisões sobre segurança — ou simplesmente quer perceber onde vive —, a lição mais importante destes dados é esta: o mapa real do crime em Portugal exige mais do que manchetes. Exige leitura por taxa, por tipo e por contexto.







