No concelho da Vidigueira, junto a Vila de Frades, as ruínas da Villa Romana de São Cucufate impõem-se na paisagem com uma imagem pouco habitual quando se fala de arqueologia romana.
Aqui não se encontram apenas alicerces ou mosaicos ao nível do solo. Conservam-se estruturas de dois pisos acima do chão, algo raro em Portugal e na Península Ibérica.
A visita é uma travessia por mais de mil anos de ocupação contínua, num lugar que passou de residência senhorial romana a mosteiro medieval, sem nunca desaparecer totalmente do mapa.
Uma residência áulica no século IV
No século IV d.C., a villa foi profundamente transformada. Tornou-se uma residência monumental, organizada em dois níveis bem distintos.
O piso superior correspondia à zona nobre: galerias porticadas, espaços amplos e terraços abertos sobre a planície alentejana revelam o estatuto do proprietário, ligado à elite agrícola do Império.
No piso inferior concentrava-se a vertente produtiva: áreas de armazenamento, espaços de trabalho e estruturas associadas à exploração rural. Esta separação funcional, aliada à escala do conjunto, confirma a importância económica do território naquela época.
O Alentejo romano não era periferia; era terra fértil, produtiva e integrada nas redes comerciais do império.
Entre os vestígios identificam-se ainda o complexo termal privado, com tanques e sistemas de aquecimento, e um tanque monumental de grandes dimensões, utilizado tanto para lazer como para rega.
Da opulência romana ao silêncio monástico
Com o declínio do Império Romano, o edifício não foi abandonado. No período medieval, foi adaptado a convento, conhecido como Convento de São Cucufate, ocupado por monges beneditinos.
Esta reutilização teve um efeito decisivo na preservação das estruturas: em vez de ruir, o conjunto foi mantido e reparado ao longo dos séculos.
Nas paredes sobrevivem frescos medievais que contrastam com a arquitetura romana. Essa sobreposição de camadas — civil e religiosa, pagã e cristã — confere ao local uma atmosfera singular. São Cucufate não é apenas um sítio romano; é um palimpsesto arquitetónico onde diferentes épocas deixaram marcas visíveis.
O que explorar
- Residência de dois pisos – caso raro de arquitetura civil romana preservada em altura em Portugal.
- Complexo termal – vestígios das termas privadas, com sistemas de aquecimento.
- Tanque monumental – uma das maiores estruturas hidráulicas romanas conhecidas no país.
- Frescos medievais – testemunhos da fase monástica do conjunto.
Vinho, talha e continuidade
A ligação à terra é outro eixo fundamental da visita. A villa era o centro de uma vasta exploração agrícola onde o vinho e o azeite assumiam papel central.
A tradição mantém-se na região da Vidigueira, onde ainda hoje se produz vinho de talha, método ancestral que remonta à época romana e utiliza grandes potes de barro para fermentação.
Para aprofundar o contexto histórico, vale a pena passar pelo Núcleo Museológico da Casa do Arco, em Vila de Frades, onde estão expostos vários achados arqueológicos provenientes do sítio.
São Cucufate confirma que o Alentejo guarda histórias muito para além da paisagem. Entre galerias romanas e frescos medievais, este conjunto arqueológico permite compreender como um mesmo espaço se adapta, transforma e resiste ao longo dos séculos.







