Em 2021, alguém entrou no Palácio Burnay, em Alcântara, e levou as últimas telas que ainda restavam dentro do edifício.
Não havia segurança que o impedisse — as janelas já estavam partidas há anos, os jardins cobertos de ervas, e o palácio que outrora recebeu D. Carlos I, Eça de Queirós e José Malhoa estava reduzido a um espaço onde quase ninguém entrava, exceto para o roubar.
É o ponto mais recente de uma história de declínio que começou há mais de um século.
Henrique Burnay e os salões de Lisboa
O edifício foi mandado construir em 1873 por Vasco César de Meneses, mas foi Henrique Burnay — banqueiro, diplomata, uma das figuras mais influentes da Lisboa oitocentista — quem lhe deu o nome e o esplendor. Inspirou-se na arquitetura francesa e italiana, encheu o interior de decoração sumptuosa e reuniu uma coleção de arte notável.
Durante anos, o palácio foi palco de festas frequentadas pelos nomes mais sonantes da vida cultural e política portuguesa. D. Carlos I, Eça de Queirós, José Malhoa — o tipo de lista de convidados que situa um espaço no centro absoluto de uma época.
Era sofisticação à europeia, num momento em que Lisboa ainda se via como parte desse circuito.
A morte de Burnay e o início do declínio
Henrique Burnay morreu em 1909. A partir daí, o palácio passou por vários proprietários, foi danificado, e em 1974 — no calor do pós-25 de Abril — foi ocupado por estudantes. O Estado adquiriu o edifício em 1980 e entregou-o à Universidade Nova de Lisboa, que o usou como sede de dois institutos.
O abandono progressivo, no entanto, acabou por vencer a função académica. As janelas partidas, os jardins tomados pela vegetação, os interiores sem mobiliário nem arte — o palácio foi-se esvaziando até ao roubo de 2021, que retirou o que restava de valor móvel.
O impasse entre fundação e universidade
O futuro do Palácio Burnay está hoje dividido entre duas propostas que não convergem. A Fundação Henrique Burnay, criada por descendentes do banqueiro, defende a reabilitação segundo o projeto original e a transformação do edifício num espaço cultural aberto à cidade — um regresso, de certa forma, ao que o palácio foi quando recebia os salões do século XIX.
A Universidade Nova, por seu lado, procura adaptar o edifício às exigências académicas atuais, modernizando sem descaracterizar — uma proposta que mantém a função institucional mas exige intervenções que a fundação considera desvirtuadoras.
Ambas enfrentam dificuldades legais, logísticas e financeiras. Nenhuma avançou de forma decisiva. E enquanto o debate continua, o edifício continua a degradar-se — cada ano que passa torna a recuperação mais cara e mais urgente ao mesmo tempo.
O Palácio Burnay fica entre Alcântara e o rio, num dos recantos mais históricos de Lisboa, visível para quem passa mas inacessível por dentro. É possível ver o exterior — as fachadas que ainda guardam a escala do que foi, as janelas vazias que substituíram o vidro.
É uma forma de refletir sobre o que a cidade decide preservar e o que deixa esperar. Por agora, o palácio espera.







