Natureza

Porque é que quase todos os humanos tiveram, durante milénios, a mesma cor de olhos

Porque é que quase todos os humanos tiveram, durante milénios, a mesma cor de olhos
Porque é que quase todos os humanos tiveram, durante milénios, a mesma cor de olhos

Da próxima vez que se olhar ao espelho, repare na cor dos seus olhos como quem lê um registo genético. Essa tonalidade guarda pistas sobre migrações e adaptações com milhares de anos — e, durante a maior parte da história da nossa espécie, essa cor foi sempre a mesma: castanho.

Não existe pigmento azul nos olhos humanos

A cor dos olhos depende, sobretudo, da quantidade de melanina na íris. Muita melanina dá olhos castanhos; pouca melanina dá origem a tons claros, como o azul ou o verde. Mas há um pormenor que surpreende quase toda a gente: fisicamente, não existe pigmento azul nos olhos.

O que vemos como azul é um efeito ótico chamado dispersão de Rayleigh — o mesmo princípio que torna o céu azul. Com pouca melanina a absorver luz, esta acaba por se espalhar dentro do olho em vez de ser absorvida. Já o verde, presente em apenas 2% da população mundial, resulta de uma combinação mais rara: pouca melanina mais um pigmento amarelado chamado lipocromo.

Um único antepassado, algures perto do Mar Negro

Há um dado ainda mais surpreendente: todas as pessoas de olhos azuis do planeta descendem, aparentemente, de uma única mutação genética. Entre há 6.000 e 10.000 anos, uma alteração no gene OCA2 surgiu numa pessoa que vivia perto do Mar Negro.

Essa mutação não eliminou a melanina — apenas reduziu drasticamente a sua produção na íris, dando origem ao primeiro par de olhos azuis da história.

O traço espalhou-se depressa. As hipóteses incluem seleção sexual — traços raros tendem a tornar-se atrativos dentro de um grupo — ou uma vantagem ligada à menor luminosidade do norte da Europa.

Restos humanos com 7.000 anos mostram algo que hoje seria raríssimo: caçadores-recoletores com pele escura e olhos azuis em simultâneo, prova de que estes traços não evoluíram todos ao mesmo ritmo nem pelo mesmo caminho.

Mais de 50 genes só para decidir uma cor

A cor dos olhos não depende de um único gene, mas de uma interação entre mais de 50 genes diferentes. É por isso que dois pais de olhos castanhos podem, sem qualquer mistério, ter um filho de olhos azuis — a combinação genética já lá estava, apenas escondida.

O que a cor dos olhos revela sobre o resto do corpo

Para lá da aparência, a cor dos olhos está ligada a diferenças reais de saúde. Olhos escuros associam-se a menor risco de degenerescência macular e de alguns cancros de pele, ainda que com um risco ligeiramente maior de cataratas.

Olhos claros, por outro lado, tendem a ser mais sensíveis à luz intensa — o desconforto ao sair para um dia de sol muito forte não é imaginação.

Há ainda a heterocromia — quando os dois olhos têm cores diferentes, ou o mesmo olho tem mais do que uma cor. Pode ser hereditária ou surgir depois de uma lesão ou doença.

Ao longo da história, gerou tanto fascínio como superstição, provavelmente porque o cérebro humano está treinado para notar diferenças antes de semelhanças — um instinto útil quando era preciso identificar depressa quem, ou o quê, era diferente no grupo.

O castanho original da espécie, o azul nascido de uma mutação junto ao Mar Negro, ou o verde raro que só 2% das pessoas têm — cada cor de olhos é uma versão diferente da mesma história de milhares de anos. A próxima pessoa que olhar nos olhos pode estar, sem saber, a olhar para um fragmento de uma migração muito antiga.

Sobre o autor

Fernando Alves

Fernando Alves é professor e editor, com formação em Ciências Naturais e mais de duas décadas de experiência a escrever e a ensinar. Assina na VortexMag artigos sobre natureza, viagens, história e atualidade, sempre com o mesmo cuidado de verificar cada facto antes de o publicar.