No ponto mais alto de Coimbra, onde os muçulmanos construíram a alcáçova no final do século X, há um conjunto de edifícios que foi residência real, depois universidade, e que desde 2013 é Património Mundial da UNESCO.
O Paço das Escolas não é um palácio visitável com cordas a separar o visitante dos móveis — é um espaço académico em funcionamento, onde estudantes de capa negra e turistas de câmara levantada partilham o mesmo terreiro.
É o palácio mais antigo de Portugal. E nunca parou de ser usado.
A primeira casa dos reis portugueses
A partir de 1131, D. Afonso Henriques fixou aqui residência. O antigo paço islâmico tornou-se o primeiro palácio real do novo reino, e ao longo da primeira dinastia vários monarcas nasceram neste espaço que foi o centro político do país nos seus primórdios.
Com a deslocação da corte para Lisboa, o paço perdeu protagonismo régio. No século XVI, D. João III instalou definitivamente a universidade em Coimbra, e em 1544 as faculdades foram transferidas para o antigo paço.
Em 1597, o edifício foi adquirido pela universidade à Coroa. O nome Paço das Escolas ficou — e ficou bem, porque descreve exatamente o que aconteceu: um paço que se tornou escola.
A Biblioteca Joanina e os morcegos
A Biblioteca Joanina foi mandada construir por D. João V em 1717 e é uma das bibliotecas barrocas mais impressionantes da Europa. Guarda cerca de 60 mil volumes dos séculos XVI a XVIII, protegidos por talha dourada, madeiras exóticas e pintura decorativa que cobrem paredes e tetos do chão ao topo.
Há um detalhe que os guias mencionam com prazer: à noite, colónias de morcegos percorrem as salas alimentando-se de insetos que de outra forma danificariam o papel. É uma solução de conservação com oitocentos anos de eficácia que nenhum sistema moderno conseguiu substituir completamente.
A Sala dos Capelos e o trono que ficou
A Sala dos Capelos foi, em tempos, sala do trono. Foi aqui que D. João I foi aclamado em 1385 — um dos momentos mais decisivos da história portuguesa, depois da batalha de Aljubarrota.
Quando a função política migrou para Lisboa, a sala passou a acolher as mais importantes cerimónias universitárias: doutoramentos, atos solenes, momentos em que a academia replica, com capas e togas, a formalidade que os mantos reais ali exerceram primeiro.
Os retratos régios nas paredes e o teto pintado mantêm a memória da função anterior. É um espaço onde o poder político e o poder intelectual se sobrepõem fisicamente, na mesma sala, como se a transição nunca tivesse sido completamente resolvida.
A Capela de São Miguel e o órgão que ainda toca
A Capela de São Miguel remonta ao século XVI, com traços manuelinos visíveis nas janelas e no portal. O interior tem azulejos seiscentistas e um órgão histórico do século XVIII que não é peça de museu — ainda é usado em concertos e celebrações solenes.
É o tipo de continuidade que o Paço das Escolas exemplifica melhor do que qualquer outro conjunto monumental do país: os espaços não foram preservados para ser visitados, foram mantidos porque continuam a servir.
A vista do terreiro
Do pátio central — o antigo terreiro do palácio — a vista sobre Coimbra e o Mondego é ampla e imediata. A cidade desce pela encosta, o rio corre lá em baixo, e a escala do conjunto percebe-se de uma vez.
É o ponto mais alto da cidade, escolhido pelos muçulmanos há mil anos pela mesma razão que os reis portugueses o mantiveram: controlar o território a partir de um único olhar.
Há quase mil anos que este terreiro recebe pessoas com propósitos diferentes — reis, estudantes, peregrinos, turistas. O que não mudou é a posição: no alto de Coimbra, com o Mondego lá em baixo, o paço mais antigo de Portugal continua a ser o lugar onde se vai para perceber a cidade de uma vez.







