Natureza

Porque é que 2026 pode ter o El Niño mais forte em 140 anos

Porque é que 2026 pode ter o El Niño mais forte em 140 anos
Porque é que 2026 pode ter o El Niño mais forte em 140 anos

Sob a superfície do Oceano Pacífico, está a acontecer algo que pode transformar 2026 num dos anos climaticamente mais extremos de que há registo. Os dados mais recentes apontam para 98% de probabilidade de surgir um “Super El Niño” até agosto — e praticamente garantido até setembro.

Um “chicote climático” no oceano

O fenómeno tem uma explicação quase mecânica. Depois de uma La Niña invulgarmente fraca em 2025, o Pacífico ficou com condições ideais para uma oscilação térmica brusca. Normalmente, os ventos alísios empurram a água quente em direção à Ásia — mas esses ventos estão a falhar.

O resultado são as chamadas Ondas Kelvin, pulsos de água quente que percorrem milhares de quilómetros até “destaparem” energia térmica acumulada junto à costa da América do Sul.

Não é um ciclo sazonal como outro qualquer. É uma redistribuição global de energia — e está a acontecer depois de 12 meses seguidos acima do limiar de aquecimento de 1,5°C, o que significa que o El Niño vai atuar sobre uma base já anormalmente quente.

Quando é que um El Niño se torna “Super”?

Cientificamente, o fenómeno é medido pelo Índice Niño Oceânico. Considera-se “forte” quando a temperatura da superfície do mar sobe entre 1,5°C e 2°C acima da média.

As previsões do centro meteorológico europeu (ECMWF) para 2026 vão mais longe: apontam para anomalias que podem ultrapassar os 3°C antes de outubro — nível que só foi atingido quatro vezes desde que há registos, em 1982, 1991, 1997 e 2015.

De secas na Amazónia a inundações na Califórnia

As consequências não se limitam a um único continente. As temperaturas globais em 2026-2027 podem atingir picos sem precedentes, aproximando-se de 1,8°C acima dos níveis pré-industriais.

Na Amazónia, o risco é de secas intensas e mega-incêndios, com a floresta a poder passar de sumidouro a fonte de carbono. No sudoeste dos Estados Unidos, incluindo a Califórnia, prevê-se um cenário conhecido como “Inverno Godzilla” — chuvas torrenciais e rios atmosféricos capazes de provocar inundações e deslizamentos de terra.

Na Austrália e na Ásia, o risco vai no sentido oposto: secas severas e falhas nas monções, com impacto direto na produção agrícola. Nos oceanos, o fenómeno tende a suprimir furacões no Atlântico, mas alimenta ciclones mais fortes no Pacífico e branqueamento de corais em larga escala.

Um problema que também se mede em dinheiro e em fome

Os custos de um Super El Niño não ficam só na meteorologia. As estimativas apontam para uma perda de cerca de 3,9 biliões de dólares na economia global, entre infraestruturas destruídas e produtividade agrícola perdida.

A produção de colheitas essenciais — arroz, algodão, soja — está entre as mais expostas, com risco de uma inflação alimentar acima de 4,5%. O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas alerta que o número de pessoas em insegurança alimentar pode chegar aos 318 milhões — um patamar semelhante ao registado no início da invasão da Ucrânia, em 2022.

E cá, na Europa?

Por cá, o sinal do El Niño é mais difícil de isolar, porque se mistura com o aquecimento global de origem humana. Alguns estudos apontam para invernos mais húmidos no norte da Europa, mas os efeitos no verão são menos previsíveis — e tendem a ficar disfarçados por trás da tendência já contínua de ondas de calor recorde no continente.

2026 aproxima-se de um ano em que o principal mecanismo natural de arrefecimento do planeta pode, paradoxalmente, funcionar como um forno.

Sobre o autor

Fernando Alves

Fernando Alves é professor e editor, com formação em Ciências Naturais e mais de duas décadas de experiência a escrever e a ensinar. Assina na VortexMag artigos sobre natureza, viagens, história e atualidade, sempre com o mesmo cuidado de verificar cada facto antes de o publicar.