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Quando Badajoz foi capital de um reino que se estendia até Lisboa e ao Alentejo

A Taifa de Badajoz governou Lisboa e o Alentejo durante décadas. Conheça ibn Marwan, o fundador que preferiu aliar-se aos cristãos.

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Mai 30, 2026
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Ibn Marwan não era um rebelde por temperamento. Era um estratega que percebeu, antes de quase toda a gente, que a sobrevivência no ocidente da Península Ibérica exigia uma flexibilidade que os dogmas — tanto os de Córdova como os do islamismo mais ortodoxo — não podiam permitir.

Por isso combatia muçulmanos quando era preciso, fazia alianças com cristãos quando era útil, e construía fortalezas em montes que ninguém mais queria.

O cronista árabe Ibn Hayyan registou-o com uma frase que ainda hoje surpreende: ibn Marwan “preferia a amizade dos cristãos à dos que dirigem a oração para Meca.” Outros chamaram-lhe “chefe dos renegados no Ocidente.” Ele terá achado que havia títulos piores.

Um reino que incluía Lisboa – com capital do lado de lá da fronteira

Por volta de 875, ibn Marwan recebeu do emir de Córdova autorização para se instalar numa zona junto ao Guadiana. Ali construiu uma cidade pensada desde o início como um reduto autónomo: Batalyos, que viria a ser Badajoz. A arqueologia sugere que ergueu a cidade sobre um assentamento visigótico anterior — mais uma camada num território que nunca parou de ser reocupado.

O que ibn Marwan foi construindo ao longo das décadas seguintes não era apenas uma cidade. Era um domínio que se estendia pelo que hoje é o Alentejo, chegava a Lisboa, a Santarém, a Coimbra, e subia quase até ao Douro.

Um território que corresponde, grosso modo, a uma parte substancial de Portugal — governado a partir de uma cidade que ficaria, séculos mais tarde, do outro lado de uma fronteira que ainda não existia.

Em Portugal, ibn Marwan fundou também Marvão — a fortaleza erguida no alto de uma escarpa no Alto Alentejo que ainda hoje conserva o seu nome. Dali controlava as rotas e os movimentos no interior do território com uma visibilidade que poucos pontos da Península podiam igualar.

A taifa que sobreviveu em duas fases

Ibn Marwan morreu, mas o poder que construiu não desapareceu com ele. A Taifa de Badajoz — o reino muçulmano que emergiu do seu legado após o colapso do Califado de Córdova no início do século XI — existiu em duas fases distintas: entre 1009 e 1094, e depois entre 1144 e 1151.

Em ambos os casos o fim chegou pela mesma via: dinastias vindas do norte de África, primeiro os Almorávidas, depois os Almóadas, com menos paciência para a autonomia local do que o emir de Córdova havia demonstrado.

No intervalo, porém, a Taifa de Badajoz foi um dos reinos muçulmanos mais extensos da Península — o que coloca uma questão que raramente se formula desta forma: durante décadas, Lisboa foi uma cidade governada a partir de Badajoz, por uma dinastia fundada por um homem que os seus contemporâneos consideravam um renegado.

A fragmentação que acelerou tudo

O período das taifas — esse mapa partido em dezenas de reinos muçulmanos rivais — foi, paradoxalmente, o que permitiu o avanço cristão pelo território que viria a ser Portugal.

As taifas de Lisboa, Santarém, Silves ou Mértola eram pequenas, vulneráveis, e gastavam energia a combater-se entre si. Os reinos cristãos do norte souberam aproveitar essas rivalidades com uma consistência que os muçulmanos, naquele momento, não conseguiam opor.

A Taifa de Badajoz não foi excepção. A sua dimensão tornava-a um alvo apetecível, e a sua localização — espalhada por dois lados do que seria a futura fronteira luso-espanhola — tornou-a difícil de defender quando a pressão aumentou.

O que ficou

Marvão continua ali, no alto da escarpa, com o nome que ibn Marwan lhe deu há mais de mil anos. Badajoz é hoje uma cidade espanhola a quarenta minutos de Elvas.

E o Alentejo — aquele território plano e lento que ibn Marwan controlou a partir de uma fortaleza no monte — guarda nos seus topónimos, nas suas ruínas e na sua arquitectura camadas de tempo que a história oficial raramente para para contar.

Há uma ironia discreta no facto de um dos fundadores do território que viria a ser Portugal ter sido um rebelde muçulmano que preferia negociar com cristãos. A história raramente é tão arrumada quanto os manuais sugerem.

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