Na zona oeste do Parque da Pena, escondido do movimento que o Palácio atrai, existe um chalet que a maioria dos visitantes de Sintra nunca chega a ver.
O Chalet da Condessa d’Edla foi construído entre 1869 e 1875 por D. Fernando II e por Elize Hensler — cantora de ópera suíço-americana que o rei conheceu em 1861, quando ela interpretou o papel do pajem Óscar no Teatro de São Carlos, na ópera “Um Baile de Máscaras” de Verdi.
D. Fernando ficou encantado com a voz e a beleza de Elize, convidou-a para cantar no Palácio da Ajuda, e o que começou ali durou até à morte do rei em 1885.
A relação e o chalet como refúgio privado
A relação entre Elize Hensler e a corte portuguesa foi complexa: aceite pelo rei e pelos filhos, mas vista com desconfiança pelo resto da corte e pelo povo, que a consideravam uma intrusa estrangeira.
Mesmo assim, D. Amélia de Orleães e D. Manuel II — o último rei de Portugal — enviaram coroas de flores no seu funeral. A condessa viveu no chalet após a morte do rei, até o vender ao Estado em 1904.
O chalet foi construído como refúgio privado do casal — um espaço para desfrutar da natureza e da arte longe das obrigações da vida real.
A arquitetura: alpina, em cortiça
A influência alpina era explícita — inspirada nas construções das montanhas suíças, como era moda na Europa da época. Mas os materiais são portugueses: a cortiça reveste cada porta e janela exterior, os beirais e as varandas.
O exterior foi pintado a imitar revestimento de madeira, com troncos de árvores nas fachadas para apoiar as trepadeiras que se espalham pelo edifício. O resultado é um edifício pitoresco com marcação horizontal do revestimento externo que não tem paralelo em Sintra.
Vários elementos decorativos do chalet têm sido associados a simbologias esotéricas e à Ordem Rosa-Cruz — uma leitura que os estudiosos debatem mas que alimenta o interesse em torno do edifício.
O incêndio de 1999 e a recuperação
Em 1999, o chalet foi palco de um incêndio significativo. A recuperação posterior respeitou as características originais do edifício, devolvendo-lhe a aparência que tinha antes do sinistro.
O jardim envolvente foi igualmente recuperado, com espécies botânicas vindas de todo o mundo — com destaque para samambaias raras importadas da Austrália e da Nova Zelândia, plantadas no vale adjacente.
Como visitar
O Chalet da Condessa d’Edla fica no extremo oposto do parque em relação ao Palácio da Pena, mantendo uma relação visual com este ao longo dos percursos de visita.
O bilhete, com custo inferior a 10 euros, inclui a visita ao interior do chalet, ao Jardim da Condessa e à Quinta da Pena. Existe bilhete de família, e há descontos para crianças e seniores. Os horários variam consoante a época do ano, com horário mais alargado no verão.
Ao longo dos percursos do parque encontram-se também fontes e miradouros naturais para o Palácio da Pena — e, numa curiosidade que poucos esperam, é possível encontrar cavalos originários do norte da Europa no parque.
O Chalet da Condessa d’Edla é o monumento mais íntimo de Sintra — construído por um rei para uma cantora de ópera, revestido de cortiça portuguesa em forma alpina, decorado com simbologias que ainda hoje se discutem, e escondido na parte do parque que a maioria dos visitantes nunca chega a alcançar. Merece exatamente o desvio que raramente recebe.






