Na freguesia de Serpins, na Serra da Lousã, o rio Ceira atravessa um desfiladeiro quartzítico antes de se alargar numa piscina natural de água cristalina. O afloramento de quartzo branco contrasta com a vegetação das encostas e com a cor da água — um daqueles cenários que parecem improváveis até se estar lá dentro.
O acesso é por estrada de terra. Não é um obstáculo intransponível, mas é suficiente para que a maioria dos visitantes da Serra da Lousã não chegue até aqui. O lugar beneficia disso.
O desfiladeiro e a piscina natural
O rio Ceira nasce na Serra do Açor, perto da Aldeia do Piódão, e percorre o concelho de Góis antes de se tornar afluente do Mondego já perto de Coimbra. No troço do Cabril, o Ceira comprime-se entre paredes quartzíticas que formam um desfiladeiro marcado — estreito, com a rocha a subir dos dois lados, com a água a correr por baixo no fundo.
O desfiladeiro termina numa zona onde o rio abranda e forma uma piscina natural. O espelho de água reflete as encostas em imagens que mudam com a luz ao longo do dia. A envolvência é rural, a atividade em redor é essencialmente agrícola, e as pessoas que chegam aqui são poucas — o que torna o lugar ainda o que é.
O túnel que nunca foi caminho-de-ferro
Nas imediações existe um túnel de poucos metros de profundidade — vestígio de um projeto de ligação ferroviária entre Arganil e a Lousã que nunca chegou a avançar.
A estrutura ficou como está, sem função, e a tentação de a usar para fins menos recomendáveis existe. Vale a pena resistir: é um pormenor histórico do território que merece mais do que se tornar depósito de resíduos.
A canoagem e os rápidos
O Ceira permite canoagem em mais do que um troço, incluindo nas imediações do Cabril — desde que o volume de água seja suficiente. O rio é estreito em vários pontos, tem árvores e pedras como obstáculos em algumas zonas, e os rápidos e desníveis tornam a descida tecnicamente exigente. Não é um percurso para iniciantes sem acompanhamento.
Os açudes ao longo do curso têm estruturas diferentes e criam pontos de interesse para quem desce o rio. A experiência anterior na área é recomendada por razões práticas, não por preciosismo.
Como chegar
O percurso passa pela estrada N342-3 que liga Serpins a Vila Nova do Ceira. Depois da ponte medieval de Serpins, segue-se em direção a Vila Nova do Ceira.
Após uma segunda ponte em ferro e cimento, continua-se por estrada de terra. A referência a Cabril está escrita a vermelho num rochedo — é a sinalização que existe e é suficiente para quem vai com atenção.
A Serra da Lousã em redor
O Talasnal, Candal, Cerdeira, Casal Novo, Chiqueiro — as Aldeias de Xisto da Lousã ficam nas imediações e podem compor um dia ou dois em torno do Cabril. A rota das Aldeias de Xisto tem 27 localidades dispersas pelas Serras da Lousã e do Açor, cada uma com o seu grau de recuperação e o seu carácter próprio.
A chapel da Senhora da Candosa e os caminhos por zonas rochosas com encostas usadas para desportos radicais completam o que a região tem para oferecer a quem chega ao desfiladeiro e decide ficar mais tempo.
O Cabril do Ceira tem tudo o que os lugares mais famosos da Serra da Lousã têm — água, rocha, floresta, silêncio — e ainda o afloramento quartzítico que torna o desfiladeiro diferente de qualquer outro. O que não tem é sinalização turística abundante nem acesso asfaltado. Por enquanto, isso é o que o preserva.






