A 24 de julho de 1580, D. António, Prior do Crato, foi aclamado rei de Portugal no castelo de Santarém. Diz-se que apenas tinha pedido para ser declarado regente e defensor do reino — mas o entusiasmo do povo foi mais longe, e D. António não recusou. Nos dias seguintes foi aclamado em Lisboa, em Setúbal, noutros pontos do país.
Durou trinta e dois dias.
A 25 de agosto, as suas forças foram derrotadas na batalha de Alcântara pelo duque de Alba, ao serviço de Filipe II de Espanha. Portugal ficou sem rei próprio. Ou quase — porque D. António não estava morto, e não estava disposto a comportar-se como se tivesse perdido.
O neto de D. Manuel que a lista oficial ignorou
D. António nasceu em Lisboa em 1531, filho natural do Infante D. Luís e neto de D. Manuel I. A palavra “natural” pesava — era filho ilegítimo, e isso tornava a sua candidatura ao trono contestável em 1580, quando a morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir deixou Portugal sem herdeiro claro.
Filipe II de Espanha tinha argumentos dinásticos mais sólidos, o apoio da nobreza mais poderosa, e um exército que os resolveu quando os argumentos não chegaram.
D. António foi derrotado em Alcântara em agosto. Sobreviveu ao combate e fugiu para norte, com tropas espanholas a persegui-lo até Viana do Castelo. Passou os meses seguintes escondido em mosteiros e casas de partidários.
Depois foi a Inglaterra pedir ajuda a Isabel I, que não lha deu. Foi a França, onde encontrou mais simpatia. E em 1582 voltou a Portugal — ao único pedaço de Portugal que ainda era seu.
A ilha que ficou do lado errado
A Ilha Terceira não reconhecia Filipe II. Angra do Heroísmo recebeu D. António com as suas fortificações intactas e a sua lealdade demonstrada.
Era um território pequeno, isolado no Atlântico, sem peso militar suficiente para mudar o resultado da guerra — mas era território português que recusava a ocupação, e isso tinha um valor simbólico que D. António percebeu imediatamente.
Instalou-se primeiro no Convento de São Francisco, depois no palácio do marquês de Castelo Rodrigo. Reforçou as defesas de Angra com o apoio financeiro de Dona Violante do Canto, uma das figuras que tornaram possível a resistência.
E fez algo que, para a época, era o gesto mais claro de soberania disponível: mandou cunhar moeda. Um rei que cunha moeda é um rei — é por isso que muitos historiadores o consideram o último príncipe da Casa de Avis, e não o Cardeal D. Henrique.
Cervantes esteve na batalha que D. António ganhou
Em 1581, os espanhóis tentaram desembarcar na ilha. Foram derrotados na batalha da Salga — um combate que ficou também na história por um detalhe improvável: entre os soldados espanhóis participantes estava Miguel de Cervantes, o futuro autor de Dom Quixote, que já tinha combatido em Lepanto dez anos antes. Lope de Vega, o dramaturgo, também estava presente.
A vitória deu fôlego a D. António, mas não mudou a direcção da guerra. As cartas que escreveu a Catarina de Médici a pedir auxílio não tiveram resposta útil. Em 1583, D. Álvaro de Bazán desembarcou na Terceira com forças suficientes para acabar com a resistência.
D. António já tinha partido para o exílio em França antes da queda final — o país inimigo tradicional dos Habsburgos era o único sítio onde um rei português sem reino podia viver com alguma dignidade.
Morreu em Paris em 1595, sem ter recuperado o trono. Portugal ficaria sob domínio espanhol até 1640.
O rei que não consta da lista
D. António não aparece na cronologia oficial dos reis de Portugal. É classificado como “candidato ao trono” — uma designação que apaga os trinta e dois dias de aclamação popular, os três anos de governo na Terceira, a moeda cunhada, a resistência mantida contra tudo o que estava contra ele.
A história é escrita por quem fica. Filipe II ficou, e D. António não consta da lista.
Mas houve um momento, numa ilha dos Açores no meio do Atlântico, em que Portugal coube num território pequeno e resistiu. E havia um rei lá — com ou sem lista oficial.






