A 19 de janeiro de 1919, a bandeira azul e branca voltou a ser hasteada no Porto. Um general veterano chamado Paiva Couceiro tinha tomado pontos estratégicos da cidade e proclamado restaurada a monarquia — menos de uma década depois de ela ter caído.
Formou-se uma junta governativa. Braga, Guimarães e Viana do Castelo aderiram. E do outro lado da Mancha, em Inglaterra, onde D. Manuel II vivia exilado desde 1910, o último rei de Portugal guardou silêncio.
Esse silêncio foi provavelmente o que matou a revolta antes de as forças republicanas chegarem.
O contexto que tornava tudo possível – e nada garantido
A Primeira República, instaurada em 1910, tinha todos os problemas que tornam um regime vulnerável: instabilidade governativa permanente, guerras internas, dificuldades económicas agravadas pela participação na Primeira Guerra Mundial, e uma sucessão de crises que não encontravam resolução.
Em 1918, Sidónio Pais — que tinha ensaiado uma presidência autoritária com apoio transversal — foi assassinado em Lisboa. A sua morte mergulhou o país numa nova fase de desordem. Para os monárquicos que tinham tentado restaurar a coroa por meios militares em 1911 e 1912, sem sucesso, o momento parecia propício para tentar de novo.
Paiva Couceiro era o nome disponível para liderar a tentativa. Veterano das campanhas coloniais, figura central do Integralismo Lusitano — o movimento que defendia uma monarquia tradicional, descentralizada e católica —, tinha reputação, organização e a determinação que as tentativas anteriores tinham demonstrado. O que faltava era o rei.
O problema de D. Manuel II
D. Manuel II tinha boas razões para ser cauteloso. As tentativas de restauração de 1911 e 1912 tinham falhado e tinham servido para consolidar a república, não para a enfraquecer. Apoiar abertamente uma nova revolta sem garantias de sucesso era arriscar a legitimidade que ainda tinha como pretendente ao trono.
Manteve contacto com os líderes da Monarquia do Norte, mas recusou dar apoio público. A ausência da figura real tornou o movimento aquilo que inevitavelmente se torna qualquer movimento restaurador sem o restaurado: uma declaração política sem corpo simbólico.
Sem D. Manuel, a Monarquia do Norte era um regime proclamado mas não encarnado — tinha junta governativa, tinha bandeira, tinha território controlado, mas não tinha rei.
O que aconteceu nos 25 dias
A adesão ficou confinada ao norte. As tentativas de alastrar a revolta para outras regiões falharam. Lisboa permaneceu fiel à República e respondeu com firmeza. Um dos confrontos mais tensos ocorreu em Monsanto, onde monárquicos se barricaram durante dias.
Paiva Couceiro tentou também o reconhecimento diplomático internacional — sem o qual qualquer governo provisório é apenas uma ocupação territorial. Nenhuma potência europeia quis interferir.
A Monarquia do Norte ficou isolada diplomaticamente num momento em que o continente ainda assimilava o fim da Grande Guerra e não tinha apetite para novos conflitos ibéricos.
A 13 de fevereiro, forças republicanas lideradas pelo capitão Sarmento Pimentel chegaram ao Porto. Não houve resistência armada — houve negociação com Paiva Couceiro, que se retirou com os seus homens para Espanha. A bandeira da República voltou a ser içada. O episódio tinha durado vinte e cinco dias.
O que ficou
A Monarquia do Norte foi a última tentativa séria de derrubar a República pela força das armas. A sua derrota teve um efeito paradoxal: uniu os principais partidos republicanos, que tinham passado os anos anteriores em guerra uns com os outros, e reforçou a legitimidade do regime nas eleições de junho de 1919.
Paiva Couceiro regressou a Portugal anos depois, sob amnistia. D. Manuel II morreu em 1932, em exílio em Inglaterra, sem nunca ter voltado ao trono.
O Porto, que durante 25 dias tinha sido a capital de uma monarquia restaurada, voltou a ser o que sempre foi: a cidade que se opõe a Lisboa por princípio, que perdeu desta vez, e que guarda a memória do episódio com a mistura de orgulho e ironia que é a sua marca registada.







