Quem chega a Penedono, vindo de sul ou de norte, vê o castelo antes de ver a vila. Erguido sobre um rochedo a 930 metros de altitude, o perfil vagamente hexagonal com torreões ameados não tem a aparência rude das fortalezas puramente militares — parece uma moradia acastelada, elegante, construída para impressionar tanto quanto para defender.
É um dos castelos esteticamente mais interessantes de Portugal. E um dos menos visitados.
Da origem muçulmana à reconstrução manuelina
A existência do castelo está documentada desde o século X. Em 987, Penedono foi invadido pelos exércitos de Almançor — o general que varreu grande parte da Península Ibérica durante as suas campanhas. A reconquista cristã veio entre 1055 e 1057, pelas forças de Fernando I de Leão.
O castelo foi residência da família Coutinho durante os séculos XIV e XV, e na crise dinástica de 1383-85 os Coutinho seguiram o partido de D. João, Mestre de Avis. Gonçalo Vasques Coutinho foi alcaide do castelo — e foi aqui que nasceram os seus filhos, entre eles Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço.
O perfil que se vê hoje é de reconstrução quinhentista, contemporânea do novo foral concedido por D. Manuel I em 1515. É um castelo com camadas de tempo sobrepostas, como a maioria — mas com uma silhueta que nenhuma das intervenções posteriores conseguiu tornar banal.
O Magriço e os Doze de Inglaterra
Álvaro Gonçalves Coutinho ficou para a história com a alcunha de Magriço — e com o episódio que Luís de Camões imortaliza n’Os Lusíadas.
Os Doze de Inglaterra eram um grupo de cavaleiros portugueses que viajaram até Inglaterra para defender a honra de doze damas inglesas que haviam sido ofendidas sem encontrar quem as defendesse localmente. A pedido do Duque de Lencastre e com apoio de D. João I, os cavaleiros foram, combateram e venceram os doze nobres ingleses.
O regresso do Magriço foi menos glorioso: caiu em desgraça na corte, partiu para a Borgonha, serviu João Sem Medo durante a Guerra dos Cem Anos, foi nomeado escudeiro da corte — e em 1419 foi despojado dos seus bens e aprisionado em Carcassonne. Regressou a Portugal no mesmo ano, sem fortuna.
É o tipo de vida que a Idade Média produzia com regularidade: herói num capítulo, prisioneiro no seguinte, e com uma alcunha que sobreviveu a tudo.
As lendas da pedra vermelha e das duas caixas
No lado nordeste do castelo existe um rochedo de tom avermelhado onde, segundo a tradição oral, nunca cresceu musgo nem vegetação. A lenda diz que a coloração vem do sangue derramado nas batalhas contra os mouros — uma marca que a pedra guardou como memória.
Outra versão substitui o sangue coletivo pelo de um cavaleiro apaixonado que caiu das muralhas na tentativa de conquistar a sua amada.
Na fachada do castelo destacam-se duas pedras brancas — as tampas de duas caixas deixadas, segundo a lenda, por uma moura rica. Uma guardaria um tesouro. A outra uma maldição sobre as terras em redor. O medo de abrir a errada manteve as duas intactas. O mistério continua.
A visita
O castelo está classificado como Monumento Nacional desde 1910. A visita é possível ao longo do ano, e a hora ideal é o fim da tarde — quando o sol desce a ocidente e a pedra de granito das paredes toma uma coloração que muda a leitura do conjunto completamente. É um daqueles efeitos de luz que a fotografia aproxima mas não reproduz.
Penedono fica na Beira Alta, a uma distância que a maioria dos visitantes do interior não inclui no itinerário. É precisamente essa marginalidade que mantém o castelo com a qualidade que tem — silencioso, com as lendas intactas e as duas pedras brancas ainda no lugar, à espera de quem não tem medo de errar a caixa.







