No interior da Mata Nacional do Bussaco, entre árvores centenárias e trilhos sombreados, surge um edifício que parece deslocado da realidade. O Palácio do Bussaco é frequentemente apontado como um dos mais belos do país — e também como um dos últimos grandes projetos promovidos pela monarquia portuguesa.
Concluído em 1907, apenas três anos antes da implantação da República, o palácio simboliza o final de uma época.
Projetado pelo italiano Luigi Manini, cenógrafo de formação, assume-se como uma interpretação exuberante do estilo neomanuelino, evocando a estética dos Descobrimentos numa linguagem já marcada pelo romantismo do início do século XX.
Um palácio que nasceu tarde
A construção teve início em 1888, por iniciativa de D. Carlos I, que pretendia criar um pavilhão real de caça na serra do Bussaco. O local escolhido integrava os terrenos do antigo Convento de Santa Cruz do Bussaco, fundado no século XVII pelos Carmelitas Descalços.
Parte das estruturas conventuais — igreja, claustros e ruínas — mantém-se integrada no conjunto, criando um contraste evidente entre a sobriedade religiosa e a exuberância palaciana.
O palácio ficou concluído em 1907, mas a família real teve pouco tempo para usufruir do espaço. Em 1917, já em contexto republicano, o edifício foi convertido em unidade hoteleira, dando origem ao Bussaco Palace Hotel, que continua a funcionar como hotel histórico.
Pedra rendilhada e referências manuelinas
A fachada, executada em pedra de Ançã, recria elementos inspirados na Torre de Belém e no Mosteiro dos Jerónimos. Esferas armilares, cordas esculpidas, colunas torsas e rendilhados em pedra compõem um cenário detalhado que reflete a sensibilidade teatral de Manini.
Em dias de nevoeiro, frequentes na serra, as torres e ameias surgem envoltas numa atmosfera densa que reforça a dimensão cénica do conjunto.
Azulejo e memória da guerra
O interior conserva um património artístico significativo. Destacam-se os painéis de azulejos de Jorge Colaço, que representam episódios da Batalha do Bussaco, travada nas proximidades em 1810, durante as invasões napoleónicas. Escadarias monumentais, frescos e mobiliário de época reforçam o carácter histórico do edifício.
A proximidade ao campo de batalha acrescenta uma camada narrativa à visita, cruzando o romantismo arquitetónico com a memória militar.
A mata como cenário
O palácio não se compreende sem a envolvente. A Mata Nacional do Bussaco, criada como espaço de retiro espiritual pelos Carmelitas, alberga atualmente mais de 250 espécies de árvores provenientes de vários continentes. Cedros-do-Buçaco, sequóias, criptomérias e fetos gigantes compõem um ecossistema singular.
Entre os percursos pedestres, surgem a Via Sacra, pequenas ermidas dispersas pela floresta e a monumental Fonte Fria, escadaria barroca por onde a água corre entre vegetação densa.
Uma visita que cruza épocas
O Palácio do Bussaco é, simultaneamente, monumento, hotel histórico e testemunho de transição política. Representa o último grande gesto arquitetónico da monarquia portuguesa e um dos exemplos mais expressivos do revivalismo neomanuelino.
Entre floresta, arte e história, a visita revela um Portugal menos evidente — onde o romantismo se cruza com o silêncio da mata e a memória de um regime que se extinguia.







