A poucos quilómetros de Faro, na vila de Estoi, ergue-se um dos edifícios mais inesperados do sul do país. O Palácio de Estoi, com a sua fachada cor-de-rosa e enquadramento ajardinado, rompe com o imaginário balnear do Algarve e introduz uma dimensão romântica raramente associada à região.
Considerado o mais significativo exemplar da arquitetura romântica algarvia, o palácio combina referências Rococó, Barrocas e Neoclássicas, resultando numa composição eclética que reflete o gosto do final do século XIX.
O sonho que atravessou décadas
A construção iniciou-se em 1840 por iniciativa de um nobre local, mas o projeto ficou inacabado após a sua morte. Só em 1893 a propriedade ganhou novo impulso, quando José Francisco da Silva, farmacêutico abastado, adquiriu o imóvel e investiu parte significativa da sua fortuna na conclusão da obra.
O empenho foi reconhecido por D. Carlos I, que lhe concedeu o título de Visconde de Estoi. Inaugurado em 1909, o palácio tornou-se centro da vida social da época, acolhendo eventos e encontros da elite regional.
Já no século XXI, o edifício foi alvo de uma intervenção de recuperação coordenada pelo arquiteto Gonçalo Byrne, passando a funcionar como unidade da rede Pousadas de Portugal. A adaptação preservou os principais elementos históricos, conciliando património e uso contemporâneo.
Jardins em vários níveis
Um dos maiores atrativos do Palácio de Estoi são os seus jardins formais de inspiração francesa, organizados em três níveis. Escadarias, lagos ornamentais, fontes e esculturas em mármore estruturam o espaço, criando percursos simétricos que enquadram a paisagem envolvente.
Os painéis de azulejos azuis e brancos, representando cenas galantes e mitológicas, decoram muros e patamares, reforçando o caráter cenográfico do conjunto. A vegetação mediterrânica integra-se no desenho geométrico, proporcionando sombra e contraste cromático.
Interiores e capela privada
No interior, os salões mantêm frescos nos tetos, estuques dourados e elementos decorativos que remetem para o gosto Neo-Rococó. O Salão Nobre é um dos espaços mais marcantes, tanto pela escala como pelo detalhe ornamental.
A capela privada, dedicada a São José, confirma a dimensão íntima do projeto original, revelando cuidado na execução e coerência estética.
Um enquadramento histórico alargado
A visita pode estender-se às Ruínas Romanas de Milreu, situadas a curta distância. Este sítio arqueológico, com mosaicos bem preservados e vestígios de uma villa romana, acrescenta uma camada histórica que recua vários séculos antes da construção do palácio.
A localização elevada de Estoi permite ainda observar o barrocal algarvio e, em dias límpidos, a linha do mar ao longe — uma perspetiva diferente da habitual experiência costeira.
Um Algarve além das praias
Visitar o Palácio de Estoi é explorar um Algarve menos associado ao litoral e mais ligado à história, à arte e à paisagem interior. Seja para percorrer os jardins, tomar um chá no antigo ambiente palaciano ou pernoitar na pousada, o edifício revela uma faceta distinta da região.
Entre azulejos, mármore e vistas abertas, o palácio confirma que o Algarve também se descobre longe da areia — num diálogo entre romantismo, património e silêncio.







