Na Igreja de São Roque, no Bairro Alto, existe uma capela que foi construída noutra cidade, benzida pelo Papa antes de ser inaugurada, desmontada em 174 peças e transportada por mar em três navios. Tem dez metros de comprimento. É considerada a mais cara do mundo — e não é difícil perceber porquê quando se está lá dentro.
A encomenda impossível de D. João V
O ouro e os diamantes do Brasil enchiam os cofres do reino com regularidade suficiente para alimentar ambições de outra escala. D. João V — o Magnânimo, o Rei-Sol Português — tinha o hábito de converter essa riqueza em pedra, arte e devoção. O Convento de Mafra foi um dos resultados. A Capela de São João Batista foi outro.
A encomenda foi feita aos arquitetos italianos Luigi Vanvitelli e Nicola Salvi — dois dos nomes mais importantes da arquitetura europeia do século XVIII. A instrução era direta na ambição: a mais luxuosa do mundo. A construção decorreu em Roma entre 1742 e 1747, com mais de 130 artífices envolvidos.
Quando ficou pronta, o Papa Bento XIV benzeu-a na Igreja de Santo António dos Portugueses. Depois foi desmontada em 174 peças, embalada e carregada em três navios com destino a Lisboa.
O que cobre cada superfície
A lista de materiais não é decoração — é demonstração. Ágata, mármore de Carrara, ametista, pórfido roxo, lápis lazuli, alabastro, jade, bronze dourado, embutidos de marfim, mosaicos figurativos. Cada superfície tem um material diferente, cada material foi escolhido pela raridade e pela cor.
Os três painéis em relevo com cenas da vida de São João Batista são de Alessandro Algardi e Francesco Queirolo. O mosaico da abside — o batismo de Cristo — é de Agostino Masucci.
O teto tem um mosaico de Mattia Moretti com a glória do santo. O pavimento tem outro mosaico, de Giovanni Battista Natali. No arco exterior, as Armas Reais Portuguesas entre anjos fecham o programa com a assinatura do encomendante.
A estrutura é de linhas neoclássicas austeras — o que torna o contraste com a riqueza dos materiais ainda mais eficaz. A contenção formal amplifica o impacto do que reveste as paredes.
A montagem, o terramoto e o que se seguiu
A capela foi remontada na Igreja de São Roque em 1750 e inaugurada oficialmente em 1752, na presença de D. João V e da família real. Cinco anos depois, o terramoto de 1755 destruiu grande parte de Lisboa. A capela sobreviveu.
Em 1768, depois da expulsão da Companhia de Jesus, D. José I entregou a Igreja de São Roque à Misericórdia de Lisboa, que a mantém até hoje.
Como visitar
A Igreja de São Roque está aberta ao público de forma gratuita. O acesso à capela e ao museu adjacente — que reúne alfaias litúrgicas, paramentaria e documentos sobre a Companhia de Jesus e a Misericórdia de Lisboa — faz-se pelo edifício ao lado, com entrada de 2,50€. O espaço está aberto de terça a domingo, das 10h às 18h.
Há algo desconcertante na escala da capela. São dez metros de comprimento — menos do que muitas salas domésticas — mas a densidade dos materiais e a qualidade da execução criam uma experiência sem proporção com as dimensões.
A riqueza está nos detalhes e no olhar que os percorre devagar: o lápis lazuli ao lado do pórfido roxo, o bronze dourado sobre o mármore branco, os mosaicos que de perto revelam a paciência de quem os compôs pedaço a pedaço. D. João V quis a mais luxuosa do mundo. É difícil argumentar que não conseguiu.







