A 250 metros da costa de Porto Covo, no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, a Ilha do Pessegueiro tem 800 metros de comprimento, 300 de largura e uma história que começa nos cartagineses e nos romanos — que usavam a ilha como centro produtor de garum, o molho de peixe fermentado que era um dos condimentos mais apreciados da antiguidade.
Os tanques de salga onde se conservava o peixe ainda são visíveis na ilha. São o vestígio mais antigo de uma ocupação humana que durou milénios e que a ilha acumulou camada sobre camada.
O forte que foi abandonado por um terramoto – e a ponte que nunca existiu
No século XVI, durante o reinado de Filipe I, iniciou-se um projeto para fortalecer o porto natural da ilha contra os ataques de corsários e piratas que infestavam esta zona do Atlântico.
Construiu-se o Forte de Santo Alberto na ilha e o Forte de Nossa Senhora da Queimada no continente. Entre os dois, planeou-se uma ponte de pedra.
A ponte nunca foi construída. O Forte de Santo Alberto foi abandonado no século XVIII depois de ser danificado por um terramoto — presumivelmente o de 1755, que destruiu grande parte da costa alentejana e algarvia.
As ruínas das muralhas e casernas ainda existem. O forte continental está igualmente em ruínas, mas conserva a sua capel barroca onde ainda se venera a imagem da padroeira.
Como visitar
A ilha pode ser visitada de barco a partir da Praia do Pessegueiro ou do porto de pesca de Porto Covo, com várias empresas a oferecer passeios turísticos entre meados de junho e meados de setembro.
Fora da época de visita organizada, o acesso é mais difícil e as correntes e ventos fortes podem complicar o regresso ao continente — um detalhe que não convém ignorar.
A primavera e o outono são as épocas mais recomendadas para visitar — temperaturas amenas, menos visitantes. No verão a ilha anima-se mas também se enche; no inverno está praticamente deserta.
Na ilha é possível observar aves marinhas que nidificam nas rochas, mergulhar em águas cristalinas e explorar os vestígios históricos com o sossego que o acesso condicionado garante na maior parte do ano.
Porto Covo e a Rota Vicentina
Porto Covo, a aldeia de casas brancas e azuis mesmo ao lado da praia, tem uma Igreja do século XVIII, mercado municipal e restaurantes com peixe e marisco frescos.
É também o ponto de partida da Rota Vicentina — conjunto de percursos pedestres que percorrem a costa sudoeste entre Santiago do Cacém e o Cabo de São Vicente, documentando a flora, fauna e cultura desta zona do litoral português.
A Praia do Pessegueiro, com areal extenso e dourado envolto por arribas escarpadas, tem boas condições para surf e desportos náuticos — uma praia selvagem com a escala certa para um dia inteiro sem sentir que se está num espaço demasiado condicionado.
A Ilha do Pessegueiro tem tanques romanos de garum, um forte abandonado por um terramoto, e a memória de uma ponte que nunca saiu do papel.
São camadas sobrepostas de ocupação humana numa ilha pequena a 250 metros da costa — visitável durante poucos meses por ano, e por isso ainda com aquele tipo de silêncio que os lugares muito procurados perdem depressa.






