Na freguesia de Cortegaça, no concelho de Ovar, ergue-se um dos mais singulares exemplos de arquitetura religiosa do litoral norte: a Igreja de Santa Marinha de Cortegaça.
A sua imagem tornou-se indissociável do manto de azulejo azul e branco que reveste integralmente a fachada e as torres, transformando um templo do início do século XX num verdadeiro ícone da tradição cerâmica portuguesa.
Apesar de muitas vezes associada a uma herança mais antiga, esta igreja é um edifício relativamente recente. Foi construída para substituir o antigo templo paroquial, então ameaçado pelo avanço das areias, num território onde a proximidade ao Atlântico sempre condicionou o uso do solo e a própria fixação das populações.
A notoriedade de Cortegaça não nasce da sua escala nem da exuberância interior, mas da opção, pouco comum à época, de transformar a fachada num grande painel cerâmico contínuo.
Um templo moderno com pele tradicional
A actual igreja ficou concluída em 1918. Durante alguns anos, apresentou-se com uma leitura arquitetónica simples, sem o revestimento que hoje a distingue. A aplicação dos azulejos só ocorreu entre 1921 e 1923, alterando por completo a imagem do edifício.
Os painéis foram produzidos pela Fábrica de Louça de Sacavém, uma das mais importantes unidades industriais da cerâmica portuguesa da época. Fundada no século XIX, a fábrica desempenhou um papel decisivo na modernização da produção de azulejo e na sua difusão em edifícios civis e religiosos por todo o país.
Em Cortegaça, o azulejo não surge como simples revestimento protetor contra a humidade marítima. A fachada transforma-se num programa iconográfico, onde se destacam cenas associadas à vida de Santa Marinha, padroeira da igreja, enquadradas por padrões geométricos e motivos decorativos de inspiração historicista.
A afirmação de uma identidade costeira
A localização da igreja, entre o pinhal e a faixa litoral, ajuda a compreender a opção cromática dominante. O azul e o branco dialogam directamente com a paisagem atlântica e com a forte luminosidade característica desta zona da costa.
As duas torres sineiras, coroadas por pináculos de inspiração ecléctica, funcionam como marco visual para toda a envolvente. Num território marcado pela dispersão habitacional e pela presença de áreas florestais, a igreja assume-se como elemento estruturante do espaço público e como referência simbólica da comunidade.
O conjunto é complementado pelo cemitério adjacente, igualmente cuidado do ponto de vista formal, reforçando a leitura do adro como espaço de memória colectiva e de continuidade entre gerações.
Interior discreto, exterior marcante
Ao contrário da exuberância da fachada, o interior da igreja apresenta uma solução bastante mais contida. As naves seguem um desenho funcional, pontuado por elementos de talha dourada e por pintura decorativa no teto, criando um ambiente de recolhimento coerente com a tradição paroquial.
Este contraste é um dos aspectos mais interessantes do edifício: a igreja afirma-se no exterior como um manifesto visual da azulejaria portuguesa, mas preserva, no interior, a sobriedade característica dos templos construídos no início do século XX para pequenas comunidades.
Azulejo como património e como linguagem
A Igreja de Santa Marinha de Cortegaça representa um momento particular da história da arte sacra em Portugal. Não pertence ao ciclo medieval nem ao barroco, mas a uma fase em que a indústria cerâmica nacional procurava novas formas de afirmação estética e comercial.
A escolha da Fábrica de Sacavém e a dimensão do revestimento cerâmico revelam uma clara intenção de valorizar o azulejo como linguagem arquitectónica, e não apenas como elemento decorativo.
Num contexto costeiro sujeito à erosão, à humidade e ao salitre, a cerâmica funcionou também como solução técnica durável, contribuindo para a preservação da alvenaria ao longo de mais de um século.
Hoje, a igreja continua a ser um dos exemplos mais reconhecidos da integração entre indústria, arte e arquitectura religiosa no Portugal contemporâneo, mantendo uma forte ligação à identidade local e à tradição cerâmica nacional.







