Início História História de Portugal: porque razão está um Rei português sepultado em Espanha?

História de Portugal: porque razão está um Rei português sepultado em Espanha?

Foi considerado como sendo um "Rei inútil" pelo Papa e diz a lenda que morreu por desgosto de amor em Toledo, onde se exilou. Conheça a história do Rei D. Sancho II.

1587
0
COMPARTILHE
D. Sancho II
D. Sancho II

 

Há 770 anos, as forças vivas da Nação obrigaram à demissão do chefe do Estado. Perante a anarquia geral, nobres e bispos queixaram-se ao Papa da incompetência de D. Sancho II para governar. Face às provas apresentadas, Inocêncio IV dispensou os portugueses do dever de obediência ao rei, que foi substituído pelo irmão. Um recado que continua válido ao fim de quase oito séculos.

D. Sancho II
D. Sancho II

Quando subiu ao trono, em 1223, D. Sancho II tinha apenas 14 anos. Passou a maior parte do reinado em guerra contra os muçulmanos e, por causa disso, desprezou as tarefas do governo. Embora ninguém pudesse contestar a sua valentia como chefe militar (o quarto rei de Portugal alargou muito o território nacional conquistando vários castelos e cidades aos mouros), deixou o reino cair na desordem, infestado por bandos de salteadores. Nobres e bispos acusaram o monarca de “não fazer justiça nenhuma” e queixaram-se ao papa da sua incompetência para exercer a autoridade.

D. Sancho II
D. Sancho II

O mal-estar aumentou quando o rei se casou, já na década de 1240, com uma aristocrata espanhola, D. Mécia Lopes de Haro, de quem ainda era primo. A nova rainha era filha de um poderoso nobre da Biscaia, Lopo Dias de Haro, por alcunha o “Cabeça Brava”, e de D. Urraca, filha bastarda de Afonso IX de Leão e meia-irmã de Fernando III de Castela. D. Mécia já tinha sido casada, mas ficara viúva muito jovem.

D. Sancho II
D. Sancho II, Dona Mécia e D. Afonso III

D. Sancho II, encantado pela beleza da sua rainha, encheu-a de riquezas, fazendo-a senhora de Torres Vedras, Sintra, Ourém, Abrantes, Penela, Lanhoso, Aguiar de Sousa, Celorico de Basto, Linhares, Vila Nova de Cerveira e Vermoim. O povo, que vivia na miséria, passou a odiar a rainha. O casamento entre parentes próximos era frequente nas cortes ibéricas do período da Reconquista: bastava obter do papa a “dispensa de consanguinidade”. Mas os nobres e bispos aproveitaram esse pretexto para dar novo fôlego à conspiração contra o rei. Escreveram ao papa denunciando a situação e, em Fevereiro de 1245, Inocêncio IV declarou nulo o casamento e ordenou que o casal “empeçado” (ilegítimo) se separasse.

D. Afonso III
D. Afonso III

D. Sancho II não acatou a ordem de separação. Os seus inimigos, chefiados pelo irmão mais novo do rei, o infante D. Afonso, chamado “o Bolonhês” por estar casado com a condessa de Bolonha, redobraram a intriga junto do papa, enquanto o país se afundava no caos. A 24 de Julho de 1245, Inocêncio IV declarou-o ‘rex inutilis’, responsabilizando-o pela anarquia social. Pela bula ‘Grandi non immerito’, o papa depôs D. Sancho II, declarando que os portugueses já não lhe deviam obediência, mas sim a D. Afonso, “o Bolonhês”, que passou a governar como regente.

D. Sancho II
D. Sancho II

O rei resistiu e a guerra civil incendiou o país. Em 1246 D. Sancho II sofreu, no entanto, um golpe fatal. Nesse Verão, a corte estava em Coimbra quando um grupo de cavaleiros chefiado por Raimundo Portocarreiro, o “Torres”, um dos principais apoiantes de D. Afonso, entrou no paço e raptou a rainha. Mal soube que D. Mécia fora levada para o castelo de Ourém, D. Sancho reuniu um exército para ir libertá-la. A vila foi cercada e o rei preparava-se para recuperar a mulher. Só que esta recusou-se a voltar para ele, assumindo a adesão ao partido de D. Afonso.

D. Sancho II
D. Sancho II

O escândalo teve um impacto decisivo. D. Mécia foi acusada de ter anuído ao rapto, em conluio com o cunhado D. Afonso. Pior: a recusa em voltar para o marido, associada ao facto de não haver filhos do casamento, deu origem ao rumor de que D. Sancho era impotente. À impossibilidade de vencer a guerra civil juntou-se o peso da vergonha. O rei partiu para o exílio, nos domínios de seu primo Fernando III de Castela, onde acabou por morrer, em Toledo, a 4 de Janeiro de 1248. Foi sepultado com o capelo de frade que usava desde a juventude. Só então o “Bolonhês” passou a usar o título de D. Afonso III. D. Mécia foi de Ourém para a Galiza e dali para Castela. Morreu em 1270 ou 1271, em Palência, e foi sepultada no mosteiro de Santa Maria, em Najera.

D. Sancho II
D. Sancho II

Nem todos os nobres portugueses se bandearam para o novo governante. Depois da partida de D. Sancho II para o exílio, Martim de Freitas, alcaide de Coimbra, recusou-se a entregar a cidade a D. Afonso, que a cercou com o seu exército. Em Janeiro de 1248, o sitiante informou Martim de Freitas da morte de D. Sancho. O alcaide pediu tréguas para ir certificar-se pessoalmente. Foi a Toledo, mandou levantar a pedra do túmulo e confirmou a morte do rei. Depositou as chaves da cidade nos braços do cadáver e regressou a Coimbra. Aí mandou abrir as portas da cidade e disse à mulher e à filha: “Deixemos este castelo a cujo é.” D. Afonso III, comovido pela lealdade do alcaide, convidou-o a continuar a governar o castelo. Mas ele recusou.

D. Sancho II
D. Sancho II

Em 1246, Afonso segura Santarém, Alenquer, Torres Novas, Tomar, Alcobaça e Leiria; Sancho II fortifica-se em Coimbra. A Covilhã e a Guarda ficam nas mãos de Afonso. Sancho II procura a intervenção castelhana na guerra civil, depois da conquista de Jaén. Assim, o infante Afonso de Castela entra em Portugal por Riba-Côa a 20 de Dezembro, tomando a Covilhã e a Guarda e devastando o termo de Leiria, derrotando a 13 de Janeiro de 1247 o exército do Conde de Bolonha.

D. Sancho II

Apesar de não ter perdido nenhuma das batalhas contra o irmão do Rei de Portugal, Afonso de Castela decide abandonar a empresa, levando consigo para Castela El-Rei D. Sancho II, visto que a pressão da Santa Sé aumentava. Embora no Minho continuem partidários de Sancho II e fiquem no terreno as guarnições castelhanas no castelo de Arnoia (seu grande apoiante e anticlerical), o caso encontra-se perdido. D. Sancho II redige o seu segundo e último testamento enquanto exilado em Toledo a 3 de Janeiro de 1248, e morre a 4 desse mesmo mês. Julga-se que os seus restos mortais repousem na catedral de Toledo.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here