Quando se fala em palácios, imagina-se imediatamente uma residência luxuosa habitada por reis. No entanto, em Portugal, o termo inclui também os “paços” — edifícios que serviram de residência régia, ainda que temporária.
É nesse enquadramento que surge o mais antigo palácio do país: o Paço das Escolas, hoje integrado na Universidade de Coimbra.
Erguido no ponto mais alto da cidade, o complexo ocupa o antigo núcleo da alcáçova islâmica construída no final do século X, durante o domínio muçulmano. Após a conquista cristã, o espaço tornou-se residência régia.
A primeira casa dos reis portugueses
A partir de 1131, D. Afonso Henriques fixou aqui residência. O antigo paço transformou-se no primeiro palácio real do novo reino. Ao longo da primeira dinastia, vários monarcas nasceram neste espaço, que foi centro político do país nos seus primórdios.
Com a deslocação progressiva da corte para Lisboa, o paço perdeu protagonismo. No século XVI, durante o reinado de D. João III, iniciou-se uma nova fase: a instalação definitiva da universidade em Coimbra, em 1537, culminando com a transferência das faculdades para o antigo paço em 1544.
Em 1597, o edifício foi adquirido pela universidade à Coroa, passando a designar-se Paço das Escolas — nome que conserva até hoje.
Desde 2013, todo o conjunto universitário está classificado como Património Mundial da UNESCO.
Biblioteca Joanina: o ouro do saber
Entre os edifícios que integram o conjunto destaca-se a Biblioteca Joanina, mandada construir por D. João V em 1717.
Considerada uma das bibliotecas barrocas mais impressionantes da Europa, guarda cerca de 60 mil volumes antigos, muitos dos quais dos séculos XVI a XVIII. O interior, revestido a talha dourada, madeira exótica e pintura decorativa, reflete a riqueza cultural do reinado joanino.
Um detalhe curioso: à noite, colónias de morcegos ajudam a proteger os livros, alimentando-se de insetos que poderiam danificar o papel.
Capela de São Miguel: fé e música
A Capela de São Miguel remonta ao século XVI e conserva traços manuelinos visíveis nas janelas e no portal. O interior é revestido por azulejos seiscentistas e alberga um órgão histórico do século XVIII que ainda hoje é utilizado em concertos e celebrações solenes.
Foi sede da confraria académica e mantém uma ligação forte à vida universitária.
Sala dos Capelos: da monarquia à academia
A Sala dos Capelos foi, em tempos, sala do trono. Aqui teve lugar a aclamação de D. João I em 1385.
Com a transformação do paço em espaço académico, passou a acolher as mais importantes cerimónias universitárias, incluindo doutoramentos e atos solenes. O teto pintado e os retratos régios reforçam a continuidade histórica entre poder político e saber académico.
Sala do Exame Privado: tradição académica
Antigo aposento régio, a Sala do Exame Privado ganhou função universitária no século XVI. Era aqui que se realizavam exames finais à porta fechada, cerimónias solenes que marcavam a conclusão do percurso académico.
A decoração atual, com azulejos de Agostinho de Paiva e pintura de teto setecentista, data de remodelações do início do século XVIII.
Um palácio que mudou de função, não de importância
O Paço das Escolas não é apenas um edifício antigo: é o testemunho físico da transição de Portugal de reino medieval para nação moderna. Primeiro centro político, depois centro intelectual, manteve sempre uma posição de destaque.
Hoje, quem sobe ao pátio central — o antigo terreiro do palácio — encontra uma vista ampla sobre Coimbra e o Mondego. Entre estudantes de capa negra e visitantes de várias nacionalidades, o espaço continua vivo.
Mais do que o palácio mais antigo do país, este é um lugar onde a história real e a história académica se cruzam há quase mil anos.








Coimbra, a primeira capital de Portugal.