Entre Portagem e Marvão, no Alto Alentejo, existe uma estrada nacional com alguns quilómetros de extensão ladeada de freixos. As árvores têm 200 anos, foram plantadas quando bordar estradas com árvores era prática corrente em Portugal, e são 235 — catorze foram abatidos em 2019 por razões de segurança rodoviária. A população de Marvão tem lutado contra novos cortes.
A EN246-1 é uma das últimas estradas deste tipo que restam no país. Não é um monumento classificado. É uma estrada que ainda funciona — e que pode deixar de ter este aspeto a qualquer momento.
O que as árvores fazem à estrada
Conduzir a EN246-1 é uma experiência diferente consoante o mês. No outono, as folhas amarelas e vermelhas caem sobre o alcatrão e a luz filtra-se pela copa das árvores de uma forma que o verão não permite.
No inverno, os ramos despidos abrem o céu mas fecham o horizonte lateral de outra maneira. Na primavera, o verde explode com uma velocidade que surpreende quem passou pela mesma estrada em fevereiro.
Do lado de Marvão, se se levantar os olhos no momento certo, a vila aparece no topo do penhasco — branca, compacta, suspensa acima dos campos. É uma visão que a velocidade de uma estrada principal não permitiria.
Ammaia, a cidade romana que ficou enterrada
A pouca distância da estrada, nas redondezas de Portagem, ficam as ruínas de Ammaia — uma cidade romana cujas escavações revelaram o que foi um centro urbano relevante da Lusitânia. Há um museu no local que contextualiza as descobertas.
É um dos sítios arqueológicos menos visitados da região, o que significa que se chega lá quase sempre sem multidões.
Marvão
A vila de Marvão fica no topo de um penedo a mais de 800 metros de altitude, com muralhas medievais que acompanham o perfil rochoso da encosta. O castelo, a Igreja de Santa Maria transformada em museu, os museus locais — tudo está lá.
Mas a forma mais honesta de conhecer Marvão é parar o carro na entrada e caminhar sem roteiro pelas ruas estreitas, prestando atenção às janelas floridas, às pedras que têm marcas de séculos de uso, ao silêncio específico de uma vila onde vivem poucos habitantes permanentes.
Portagem e o regresso
De volta a Portagem, a praia fluvial junto ao rio Sever é o contraponto natural a uma tarde passada em altitude. A água é fria, o relvado nas margens serve de mesa de piquenique, e os restaurantes em redor servem os pratos do Alentejo — sopa de cação, carne de porco à alentejana, açorda — sem cerimónia nem lista de espera fora dos meses de agosto.
Castelo de Vide e o Parque Natural de São Mamede
Quem fica mais do que um dia na região tem Castelo de Vide a pouca distância — maior do que Marvão, mais colorida, com judiaria medieval, sinagoga, fonte numa praça quase secreta e um castelo com vistas sobre o parque natural.
O Parque Natural de São Mamede tem trilhos pedestres e cascatas que a maioria dos visitantes da região não chega a encontrar.
A EN246-1 é uma estrada velha com árvores velhas que ainda não foram todas cortadas. Não é um destino — é um percurso, uma forma de chegar a Marvão que é melhor do que qualquer alternativa mais rápida. Quando lá passar, vá devagar. Os freixos têm 200 anos e merecem mais do que a velocidade permite ver.






