Perto de Marvão, no coração do Parque Natural da Serra de São Mamede, existe uma cidade romana que desapareceu da superfície e ficou enterrada durante séculos. Chama-se Ammaia.
Foi elevada a Civitas por volta do ano 44 d.C., tornou-se município ainda no século I, e em determinado momento foi soterrada por um cataclismo — provavelmente sísmico — que cobriu a parte baixa da malha urbana e acelerou o seu abandono.
É precisamente esse soterramento que a preservou. Por cima de Ammaia não se construiu nada. A cidade ficou intacta por baixo da terra.
O que as escavações revelaram
As primeiras escavações sistemáticas começaram em 1995, conduzidas pela Fundação Cidade de Ammaia. Até hoje foram postos a descoberto cerca de 3.000 metros quadrados — mas estima-se que a área original da cidade cobria cerca de vinte hectares. A maior parte ainda está por escavar.
O que já se vê é considerável: partes da muralha com torres, uma porta na zona sul, vestígios de áreas residenciais, uma praça monumental pavimentada e o Cardo Maximus — a via principal que conduzia ao Fórum.
O Fórum tem o podium de um templo parcialmente preservado, com paredes de um pórtico que o circundava na época de esplendor. As termas públicas também são visíveis.
A Quinta do Deão, antiga habitação dentro do perímetro arqueológico, alberga hoje o Museu Monográfico de Ammaia — com os objetos encontrados nas escavações, incluindo uma das mais importantes coleções de vidros romanos da Península Ibérica. É um detalhe que revela a sofisticação da cidade: vidro romano em quantidade e qualidade é sinal de riqueza e de comércio de longa distância.
O território que Ammaia governava
Na época romana, Ammaia situava-se na província da Lusitânia e tinha um território administrativo que cobria grande parte do atual distrito de Portalegre, estendendo-se também para território que hoje pertence a Espanha. Era um centro urbano com peso regional significativo — não uma cidade de segunda linha.
O declínio começou entre os séculos V e IX. Quando os árabes controlavam a região, a população abandonou definitivamente Ammaia em favor da Marvão já então fortificada nas alturas. As pedras da cidade foram sendo reaproveitadas ao longo de séculos para construir outras coisas — prática universal nos lugares abandonados.
O que ficou enterrado escapou a esse destino.
A arqueologia não destrutiva
Ammaia foi escolhida como sítio-teste para um projeto financiado pelo programa Radio-Past, que estuda a integração de tecnologias não destrutivas na arqueologia.
Prospeção geofísica, georadar, fotografia aérea e outros métodos permitem mapear o que está por baixo da terra sem escavar — revelando estruturas antes de qualquer intervenção física.
É uma abordagem que pode multiplicar o conhecimento sobre a cidade sem o risco de destruir o que ainda não foi estudado. Ammaia está, literalmente, a ser lida por dentro antes de ser aberta.
Como visitar
O sítio arqueológico está aberto ao público, com o museu na Quinta do Deão como ponto de partida. A visita combina-se naturalmente com Marvão, a poucos quilómetros — o castelo medieval no topo do penedo e as ruínas romanas no vale em baixo são dois tempos da mesma história do mesmo território.
Ammaia foi soterrada por um cataclismo, esquecida durante séculos, redescoberta no início do século XX e classificada como Monumento Nacional em 1949 — depois do que esteve abandonada até 1994. É o tipo de percurso que diz algo sobre a forma como Portugal trata o que tem. O que a terra guardou, ao menos, não se perdeu.






