No topo da pequena vila de Veiros, no concelho de Estremoz, ergue-se o Castelo de Veiros, uma das fortalezas mais discretas — e, ao mesmo tempo, mais problemáticas — do património militar alentejano.
Construído maioritariamente em xisto, material abundante na região, o castelo mantém ainda uma leitura clara da sua estrutura medieval.
Porém, ao contrário de muitos outros recintos defensivos do Alentejo, encontra-se hoje fora do circuito patrimonial regular, com acesso condicionado e num estado de conservação que levanta sérias preocupações.
O silêncio que envolve o monumento não resulta da sua localização rural, mas da ausência de um projecto de salvaguarda que acompanhe a importância histórica que estas muralhas efectivamente possuem.
Um centro da Ordem de Avis no Alentejo medieval
Durante a Idade Média, Veiros foi uma das vilas mais relevantes da Ordem de Avis. O castelo funcionava como sede de comenda, concentrando funções militares, administrativas e económicas numa vasta área da raia interior alentejana.
A fortaleza integrava o sistema defensivo que protegia os eixos de circulação entre o interior do Alentejo e as principais praças-fortes da região, numa época em que o controlo do território se fazia a partir destes pequenos núcleos fortificados.
Mais do que um simples posto de vigilância, Veiros era um centro de poder local, onde se geriam rendimentos, se administrava justiça e se organizava a defesa de um território rural disperso.
O lugar onde nasceu o primeiro duque de Bragança
O Castelo de Veiros está também ligado a um dos nomes centrais da história política portuguesa. Foi aqui que nasceu D. Afonso, 1.º Duque de Bragança, filho natural do rei D. João I e de Inês Pires.
D. Afonso viria a tornar-se o primeiro duque de Bragança, dando origem à Casa que, em 1640, subiria ao trono português. Este dado confere a Veiros um valor simbólico muito particular: trata-se de um dos locais de origem da dinastia que viria a governar Portugal durante quase três séculos.
Apesar desse peso histórico, a ligação entre o castelo e a fundação da Casa de Bragança permanece praticamente ausente da comunicação patrimonial e turística da região.
Uma fortaleza que ficou fora da modernização militar
Ao contrário de praças como Elvas ou a própria Estremoz, profundamente transformadas durante a época da artilharia, o castelo de Veiros não foi adaptado aos modelos defensivos modernos.
Esta ausência de remodelações profundas faz de Veiros um raro exemplo de fortificação medieval que conservou, em traços gerais, a sua configuração original.
O recinto, a torre de menagem e os panos de muralha permitem compreender de forma direta como se organizava a defesa de um pequeno centro senhorial antes da generalização da pólvora.
Esse carácter quase intacto, do ponto de vista tipológico, é precisamente um dos seus maiores valores históricos.
Património em propriedade privada
O problema central de Veiros não está na sua relevância histórica, mas na sua situação actual. O castelo encontra-se inserido em propriedade privada, o que condiciona o acesso público e dificulta qualquer intervenção de conservação regular.
A falta de manutenção é hoje visível. A vegetação cresce no interior e sobre as estruturas, infiltrando-se nas juntas do xisto e provocando deslocações progressivas de blocos. Alguns troços de muralha e elementos do coroamento apresentam já sinais evidentes de instabilidade.
Trata-se de um processo lento, mas contínuo, que ameaça uma fortificação que resistiu a séculos de uso militar, mas que corre agora o risco de se perder por ausência de uma política activa de salvaguarda.
Um problema que ultrapassa Veiros
O estado do Castelo de Veiros é representativo de uma fragilidade estrutural mais ampla na gestão do património em meio rural. O despovoamento da vila e o envelhecimento da população local retiraram ao monumento os seus guardiões naturais.
Sem um enquadramento público claro — seja através de protocolos com os proprietários, seja por via de instrumentos legais de protecção e valorização — o castelo permanece num impasse: reconhecido como património relevante, mas sem condições efectivas para ser preservado.
Veiros continua, assim, a guardar uma parte decisiva da história da Ordem de Avis e da origem da Casa de Bragança, num silêncio cada vez mais frágil. Não por falta de memória, mas por ausência de decisão.







