No alto de Santiago do Cacém, com vista sobre a planície alentejana e o mar, existe um castelo que acumula camadas de ocupação desde a época romana até ao século XIX — e que tem um cemitério no seu interior.
Não é uma coincidência nem um acidente histórico: foi uma decisão deliberada, tomada em meados do século XIX, quando uma lei proibiu os enterros junto às igrejas e o castelo, já abandonado, foi o espaço disponível.
Entre as personalidades enterradas dentro das muralhas estão o escritor Manuel da Fonseca e o pintor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE em 1961.
Miróbriga, os mouros e a Ordem de São Tiago
Antes do castelo existia a cidade romana de Miróbriga — um centro cultural e religioso da província da Lusitânia com templo dedicado ao deus Mirobrigus, que lhe deu o nome. Com as invasões bárbaras do século V, a cidade foi abandonada e a população refugiou-se numa colina próxima, onde construiu uma fortificação.
Os muçulmanos ocuparam a fortaleza, deram-lhe o nome de Kassen e acrescentaram novas muralhas, torres e portas. No século XII, D. Afonso Henriques reconquistou o castelo e doou-o à Ordem de São Tiago — daí o nome Santiago do Cacém, em homenagem ao apóstolo padroeiro da Ordem.
As intervenções e os eventos históricos
O castelo foi crescendo ao longo dos séculos com a lógica habitual das fortalezas medievais: uma igreja matriz no século XIII, dedicada a Nossa Senhora do Castelo, com portal românico-gótico e retábulo barroco no altar-mor; uma barbacã ameada no século XIV para reforçar a entrada principal; e adaptações para artilharia no século XVII.
Os eventos que aqui aconteceram têm o peso da história nacional: o casamento de D. Pedro I com D. Constança Manuel em 1336; o refúgio de Leonor Teles depois da revolta popular de 1383; e o recolhimento de D. João IV durante a Guerra da Restauração em 1641.
O cemitério do século XIX
Quando uma lei de saúde pública proibiu os enterros nas igrejas e conventos, a Junta de Paróquia de Santiago do Cacém precisava de um espaço alternativo ao cemitério junto à Igreja Matriz. O castelo estava em ruínas e desabitado — o espaço existia. A decisão foi aproveitá-lo.
O resultado é um cemitério com sepulturas de lápide e inscrição, outras apenas com cruzes de ferro, dentro de muralhas medievais, com vista para o Atlântico de um lado e para a planície de outro. É uma sobreposição de funções que poucos castelos portugueses têm — e que torna Santiago do Cacém diferente de qualquer outro.
A visita
O castelo está aberto todos os dias das 8h30 às 16h30 com entrada gratuita. Há um centro interpretativo para contextualizar a história e a arquitetura do conjunto. A vista a partir das muralhas sobre a paisagem em redor — mar e serra em simultâneo — é o enquadramento que a posição geográfica sempre garantiu a quem controlava este ponto.
O Castelo de Santiago do Cacém começou como cidade romana, passou por mouros e templários, recebeu um casamento real e abrigou reis em fuga — e no século XIX tornou-se cemitério porque estava vazio e era o sítio mais conveniente.
É uma história de reutilização contínua que diz algo sobre como Portugal tratou o seu património antes de o classificar. E o resultado, por acaso, é um dos castelos mais singulares do país.







