Na Porto, numa artéria discreta da zona oriental da cidade, a Casa Museu Fernando de Castro surge como um dos espaços museológicos mais singulares do país.
À primeira vista, nada na fachada denuncia o que se encontra no interior. A surpresa surge logo ao atravessar a porta: um percurso denso de salas onde a talha dourada, a escultura, a pintura e o mobiliário antigo ocupam praticamente todas as superfícies.
Mais do que um museu no sentido clássico, este é o reflexo direto de uma vontade individual — a de um homem que fez da sua própria casa um lugar de salvaguarda para fragmentos da arte sacra e decorativa portuguesa.
O coleccionador e a sua casa
O responsável por este universo é Fernando de Castro (1889-1946), figura ligada à vida cultural portuense da primeira metade do século XX. Poeta, caricaturista e homem de fortes interesses artísticos, Fernando de Castro reuniu ao longo de décadas um vasto conjunto de obras provenientes, em muitos casos, de igrejas e conventos desativados, de espólios particulares e de contextos de demolição.
Ao contrário da lógica museológica atual, as peças não foram organizadas segundo critérios cronológicos ou tipológicos.
A casa foi sendo progressivamente transformada num espaço de acumulação, onde a talha dourada passou a integrar paredes, portas, vãos e tetos, criando uma sequência de ambientes marcados por um evidente horror vacui.
Neste interior, a ornamentação não funciona como complemento arquitetónico: é o próprio elemento estruturante da experiência de visita.
Talha deslocada, nova leitura
Grande parte da talha que hoje se observa na Casa Museu teve origem em retábulos, tribunas e estruturas litúrgicas. Retirada do seu enquadramento religioso original, foi adaptada às paredes da habitação, muitas vezes cortada ou ajustada às dimensões dos compartimentos.
Anjos, colunas salomónicas, frisos e volutas formam composições contínuas, onde se dilui a fronteira entre peça autónoma e revestimento.
Este processo, que hoje seria impensável em termos de conservação patrimonial, traduz bem a lógica do colecionador: preservar fisicamente os objetos, mesmo que para isso fosse necessário criar um novo contexto completamente artificial.
O resultado é um espaço de leitura difícil, mas extremamente revelador da forma como, no início do século XX, se encarava o destino de grande parte do património artístico religioso.
Pintura, escultura e biblioteca
Para além da talha, a casa integra uma colecção de pintura portuguesa dos séculos XIX e XX, com obras de autores como Silva Porto e José Malhoa.
A escultura religiosa, de diferentes épocas, distribui-se pelos vários compartimentos, muitas vezes integrada em nichos improvisados. Existe ainda um importante núcleo bibliográfico, associado ao percurso intelectual do proprietário, bem como o seu antigo gabinete de trabalho, que se mantém praticamente inalterado.
Esse espaço permite compreender melhor o perfil de Fernando de Castro enquanto criador e observador crítico da sociedade do seu tempo, muito para além da imagem de simples colecionador.
Uma casa preservada por vontade expressa
Após a morte de Fernando de Castro, a casa foi doada ao Estado, por iniciativa da família, com a condição de que o conjunto fosse preservado sem alterações significativas. Essa decisão explica a singularidade do museu na actualidade.
Ao contrário de muitas casas-museu adaptadas a percursos expositivos contemporâneos, a Casa Museu Fernando de Castro mantém a organização original dos espaços e a disposição das peças, conservando intacta a leitura do projeto pessoal do seu proprietário.
É precisamente esta fidelidade ao ambiente doméstico original que transforma a visita numa experiência muito diferente da de um museu convencional.
Um retrato raro do colecionismo privado
A Casa Museu Fernando de Castro constitui hoje um testemunho raro sobre o papel do colecionismo privado na salvaguarda — ainda que informal — de um vasto conjunto de bens artísticos num período de forte transformação social e urbana.
Num Porto em rápida modernização, este interior funciona como uma espécie de cápsula cultural, onde se cruzam o gosto pelo barroco, a preocupação com a perda de património religioso e uma visão muito pessoal da arte.
Não se trata apenas de um espaço de exposição, mas sim do retrato direto de um modo de habitar a arte — intenso, acumulativo e profundamente marcado pela sensibilidade de quem a construiu.






