Na pequena aldeia de Brotas, no concelho de Mora, a paisagem urbana revela uma organização pouco comum no Alentejo rural. O casario branco, recortado por escadarias exteriores e alpendres profundos, converge para um único ponto de referência: o Santuário de Nossa Senhora de Brotas.
É esta relação directa entre a aldeia e o espaço de culto que distingue Brotas de outras povoações da região. Aqui, a malha urbana não nasceu da agricultura nem da instalação de um senhorio, mas da necessidade de acolher romeiros e viajantes que, durante séculos, se deslocaram a este santuário mariano, um dos mais antigos e persistentes centros de peregrinação do Alentejo.
Uma aldeia pensada para receber peregrinos
Brotas desenvolveu-se como verdadeira vila-santuário. Toda a sua estrutura foi organizada para servir a vida religiosa e a hospitalidade associada às romarias.
O elemento mais característico desta organização são as chamadas Casas de Confraria. Trata-se de habitações de dois pisos, com escadas exteriores em alvenaria e varandas corridas, construídas por confrarias oriundas de localidades vizinhas, como Mora e Pavia, para alojar os fiéis durante as grandes celebrações.
Este sistema de acolhimento colectivo, raro no contexto alentejano, conferiu à aldeia uma unidade arquitectónica muito marcada. As escadarias exteriores que hoje definem o ritmo das ruas correspondem, na prática, a uma solução funcional: permitiam o acesso directo aos pisos superiores reservados aos hóspedes, mantendo a circulação separada dos espaços de apoio no rés-do-chão.
Um santuário de dimensão inesperada
O próprio santuário domina visualmente a aldeia e explica, por si só, a importância histórica de Brotas. A escala do templo contrasta com a reduzida dimensão do núcleo habitado.
O interior conserva um conjunto expressivo de azulejaria seiscentista e de talha dourada, testemunhando os sucessivos períodos de prosperidade associados às peregrinações.
Esta relevância está também ligada à administração das terras pela Ordem de Avis, que deteve um papel decisivo no enquadramento religioso e patrimonial do santuário.
Durante séculos, Brotas funcionou como ponto de apoio a um território mais vasto de devoção popular, atraindo romeiros vindos de diferentes zonas do Alentejo central.
Uma economia moldada pela hospitalidade
A vida da aldeia esteve sempre intimamente associada à chegada cíclica de peregrinos. As casas, os largos e os acessos foram pensados para responder a essa pressão temporária sobre um povoado pequeno.
Com o declínio progressivo das grandes romarias ao longo do século XX, Brotas entrou num período de maior quietude. No entanto, ao contrário de muitas aldeias alentejanas, conseguiu reutilizar parte desse património construído ligado à hospitalidade.
Algumas das antigas Casas de Confraria e habitações adaptaram-se ao turismo de pequena escala, preservando a estrutura original e mantendo viva a vocação de acolhimento que sempre caracterizou o lugar.
Um núcleo urbano preservado
Um dos aspectos mais relevantes de Brotas é a preservação da sua morfologia urbana. Não houve um crescimento periférico desordenado nem a descaracterização das fachadas.
A manutenção regular da cal, a permanência dos balcões, das escadas exteriores e dos volumes tradicionais contribuem para uma leitura clara da aldeia como conjunto histórico coerente. Aqui, a paisagem construída continua a reflectir o seu uso original e a sua função simbólica.
Mais do que um cenário turístico, Brotas mantém uma vivência quotidiana discreta, ancorada num ritmo lento e numa forte relação entre espaço público, devoção e memória colectiva.
Um lugar de devoção e de pausa
Ao final do dia, quando a sombra do santuário se projecta sobre o casario, torna-se evidente a razão pela qual Brotas conserva uma identidade tão própria no contexto alentejano.
A aldeia não se afirma pela monumentalidade isolada de um edifício, mas pela forma como o espaço urbano, as casas e o santuário formam um conjunto pensado para acolher, orientar e proteger quem chegava em peregrinação.
Brotas permanece, assim, como um dos exemplos mais claros de uma aldeia moldada pela devoção popular — um património vivo onde a arquitectura e a hospitalidade continuam a contar a história de um Alentejo que se organizou, durante séculos, em torno do sagrado.







