No interior do concelho de Loulé, longe do frenesim do litoral, Querença conserva um Algarve pausado, agrícola e profundamente ligado à terra.
Implantada no topo de um pequeno monte, numa zona de transição entre o barrocal e a serra, a aldeia olha o território de cima, como se observasse à distância a pressa que ficou para trás.
As casas caiadas, alinhadas ao longo da encosta, conduzem naturalmente ao ponto mais alto, onde a igreja domina a paisagem. O traçado é simples, funcional, e mantém uma coerência rara numa região onde a pressão urbanística tem sido intensa. Aqui, o branco da cal continua a refletir a luz forte do sul, e o silêncio ainda faz parte do quotidiano.
Água: o bem raro que moldou a aldeia
Se há elemento que explica a fixação humana em Querença, é a água. Numa região marcada pela escassez hídrica, esta zona beneficiou de nascentes e linhas de água que permitiram o desenvolvimento da agricultura e de uma economia de subsistência sólida.
Essa relação é visível nos tanques, nas fontes e nos antigos sistemas de rega que atravessam a aldeia. É também por isso que, a poucos quilómetros, se encontra a Fonte da Benémola, uma das áreas naturais mais singulares do Algarve. A ribeira corre durante todo o ano, criando um corredor verde inesperado, rico em fauna e flora.
O trilho oficial da Fonte da Benémola é circular, tem cerca de 4,5 km e dificuldade fácil. É um percurso ideal para compreender o contraste entre o Algarve seco e esta mancha fértil que resiste mesmo nos meses mais quentes.
A igreja e a identidade comunitária
No topo da aldeia ergue-se a Igreja Matriz de Querença, dedicada a Nossa Senhora da Assunção. O edifício, de linhas sóbrias, funciona como referência visual e simbólica da comunidade.
A partir do adro, a vista abre-se sobre o barrocal, revelando amendoeiras, alfarrobeiras e figueiras — a tríade agrícola que marcou durante séculos a economia local.
A vida comunitária mantém-se ativa em momentos específicos do ano, sobretudo nas festas religiosas e gastronómicas, quando a aldeia ganha um movimento discreto, mas genuíno, longe de encenações turísticas.
Sabores do interior algarvio
Querença é também um destino para quem procura a cozinha algarvia mais autêntica. Aqui encontram-se pratos que raramente surgem nas ementas do litoral, como o xerém, a galinha cerejada ou o galo de cabidela. A proximidade da serra introduz ainda sabores de caça, como o coelho e o javali.
Os licores artesanais são outro traço identitário. Produzidos a partir de frutos locais, existem várias variedades, com destaque para o medronho. O mel e os enchidos completam uma oferta que reflete uma relação direta entre o território e a mesa.
Querença como base para explorar o interior
A aldeia pode servir de ponto de partida para descobrir outros núcleos históricos do Algarve interior. Perto dali fica Tôr, com a sua ponte de origem romana, e Estoi, onde o palácio e as ruínas romanas de Milreu revelam um passado antigo e sofisticado.
Mais a norte, Alte apresenta outro exemplo de aldeia bem preservada, conhecida pelas suas nascentes e pela praia fluvial, muito procurada no verão.
Um Algarve que se descobre devagar
Visitar Querença é aceitar um ritmo diferente. É caminhar sem destino definido, observar os detalhes das fachadas, ouvir a água a correr e perceber como a identidade algarvia também se construiu longe do mar.
Num Algarve frequentemente reduzido às praias, Querença lembra que o interior guarda uma memória viva, feita de paisagem, sabor e tempo. Aqui, a autenticidade não é um conceito — é uma prática diária.







