Há estradas que preparam o espírito. A que desce para a Aldeia da Pena, no concelho de São Pedro do Sul, é uma delas. Atravessa a Serra de São Macário em curvas apertadas, abre janelas súbitas sobre o vale do Deilão e, de repente, revela um pequeno aglomerado de xisto encaixado no fundo da encosta.
Com apenas meia dúzia de habitantes, a Pena vive numa escala quase doméstica. Não há trânsito, nem ruído urbano. O som dominante é o da ribeira que atravessa a aldeia e acompanha quem percorre as suas ruelas inclinadas.
Um ninho de pedra
O casario, construído em xisto e coberto por ardósia, parece crescer da própria rocha. As casas alinham-se em socalcos naturais, adaptadas ao relevo, num exercício de arquitetura moldado pela necessidade e pelo engenho.
As ruas são estreitas, empedradas, pensadas para passos e não para rodas. Cada recanto guarda sinais de uma vida rural persistente, onde a montanha sempre ditou o ritmo. Integrada na rede “Aldeias de Portugal”, a Pena é um dos exemplos mais íntegros de aldeia de montanha na região de Lafões.
A história que atravessa o trilho
A fama da aldeia deve-se, em parte, à sua lenda. Durante séculos, não existiam acessos rodoviários. Quando alguém morria, o corpo era transportado numa maca por trilhos íngremes até Covas do Rio.
Num desses percursos, um dos homens escorregou num penedo e a maca caiu-lhe em cima, provocando-lhe a morte. A expressão “o morto que matou o vivo” ficou, e hoje dá nome ao trilho que liga as duas aldeias.
O percurso pedestre é um dos mais procurados da zona. Exigente em alguns troços, recompensa com vistas abertas sobre a serra e a sucessão de penedos que moldam a paisagem.
À mesa, sabores de montanha
Apesar da dimensão reduzida, a Pena tornou-se paragem gastronómica. O restaurante “Onde o Morto Matou o Vivo” perpetua a memória da lenda e valoriza a cozinha regional. O cabrito assado e a vitela de Lafões dominam a carta, acompanhados por mel de urze e pão cozido em forno de lenha.
A refeição encaixa naturalmente no cenário: robusta, ligada ao território, sem artifícios.
O que não pode perder
- Casario de xisto e ardósia – arquitetura integrada na encosta.
- Trilho do Morto – ligação histórica e panorâmica a Covas do Rio.
- Ribeira da Pena – fio de água que estrutura a aldeia.
- Gastronomia local – pratos tradicionais da Serra de São Macário.
Um exercício de contemplação
Na Aldeia da Pena, o tempo abranda. O pôr do sol alonga as sombras sobre os penedos, a ribeira continua a correr sem pressa e o silêncio ganha espessura. É um lugar para caminhar devagar, observar a geografia e aceitar a escala mínima da aldeia como parte da experiência.
Para quem procura um interior autêntico, longe das rotas mais óbvias, a Pena confirma que há vales onde o país ainda se mantém quase intacto.






