Há uma ironia no coração de Coimbra que raramente se comenta: a cidade não se chama o que deveria chamar-se. O nome romano original era Aeminium. Conímbriga era outra cidade, a dezasseis quilómetros de distância, onde hoje é Condeixa-a-Nova.
E no entanto foi o nome de Conímbriga que sobreviveu — deformado, contraído, transformado em Coimbra ao longo de séculos de uso oral — enquanto Aeminium desapareceu completamente da memória colectiva.
Para perceber como isto aconteceu, é preciso descer. Literalmente.
A cidade construída em cima de outra cidade
Aeminium foi fundada no século I d.C., durante o principado de Augusto, numa colina escarpada sobre o rio Mondego — o mesmo morro onde hoje se ergue a Alta de Coimbra, com a universidade e a Sé Velha. A escolha do lugar não foi arbitrária: a colina era defensável, controlava a via romana que ligava Lisboa a Braga, e o Mondego permitia escoar produtos entre o interior e o Atlântico. Era um ponto estratégico que o Império Romano sabia reconhecer.
O problema era o terreno. A colina era irregular e demasiado inclinada para construir em cima dela o Fórum — o centro político, religioso e comercial de qualquer cidade romana que se prezasse. Os engenheiros romanos resolveram o problema da única forma que conheciam: construindo por baixo.
O criptopórtico de Aeminium é uma estrutura subterrânea de galerias e abóbadas de pedra calcária que funciona como uma plataforma artificial gigante. Dois pisos de túneis ventilados e iluminados por poços de luz, desenhados para nivelar o terreno e suportar o peso do Fórum que ficaria por cima. A solução tem quase dois mil anos e ainda está intacta, debaixo do que é hoje o Museu Machado de Castro.
O êxodo que mudou tudo
Durante séculos, Aeminium cresceu à sombra de Conímbriga, que era a cidade mais importante da região. Depois, no século V, os Suevos atacaram. Entre 465 e 468 d.C., Conímbriga foi saqueada, as muralhas foram parcialmente destruídas, o sistema de abastecimento de água ficou comprometido. A população que sobreviveu fez o que as populações fazem quando a cidade deixa de ser habitável: foi-se embora.
Foram para Aeminium. Trouxeram consigo famílias, pertences, e a sede episcopal — a estrutura religiosa e administrativa que definia o estatuto de uma cidade no mundo tardo-romano. Aeminium absorveu tudo isso e tornou-se, de facto, a herdeira de Conímbriga.
E foi aqui que a ironia linguística se instalou. Os refugiados continuaram a chamar à sua nova cidade pelo nome da antiga. Conímbriga foi-se desgastando na pronúncia — Conimbrica, Colimbria, Coimbra — até que o nome original de Aeminium desapareceu completamente.
A cidade que existe hoje chama-se pelo nome de uma cidade que foi abandonada há mil e quinhentos anos e que hoje são apenas ruínas a dezasseis quilómetros de distância.
O que ficou debaixo do chão
Na Idade Média, o Fórum romano desapareceu da superfície. Por cima das suas ruínas construiu-se o Palácio Episcopal, que viria a tornar-se o Museu Machado de Castro. Mas o criptopórtico ficou intacto — simplesmente esquecido, enterrado, aguardando que alguém voltasse a descer.
Quem visita hoje o museu pode caminhar pelos túneis romanos que têm quase dois mil anos e estão estruturalmente inalterados. Nas salas do museu estão os objectos que Aeminium deixou: bustos de imperadores que decoravam o Fórum, lápides com inscrições honoríficas, cerâmica de uso diário, moedas, joalharia.
Os fragmentos de uma cidade que foi capital regional, que recebeu os refugiados de Conímbriga, que viu nascer D. Afonso Henriques, e que depois cedeu o próprio nome sem que ninguém registasse exactamente quando.
Coimbra é hoje uma cidade universitária conhecida em todo o mundo. Tem uma história medieval rica, uma tradição académica com séculos, um rio que os poetas trataram por tu. Mas tem também, debaixo dos pés de quem sobe a Alta, os túneis de uma cidade que existia antes de tudo isso — e que se chamava de outra forma.
O nome que Coimbra usa não é o seu. É o nome que trouxe emprestado de uma cidade que morreu.






