Há lugares onde o passado não é apenas memória — é cenário. Sortelha, na Beira Interior, é um desses casos. A 760 metros de altitude, esta aldeia histórica conserva o traçado medieval quase intacto, com casas de granito encaixadas na rocha e muralhas que desenham o horizonte.
Caminhar por aqui é aceitar um ritmo diferente. As ruas estreitas conduzem ao topo, onde o Castelo de Sortelha domina a paisagem. Construído no século XII por ordem de D. Sancho I, integrou a linha defensiva que protegia a fronteira.
Hoje, a Torre de Menagem continua a marcar o perfil da aldeia, enquanto as quatro portas — da Vila, Nova, Falsa e da Traição — recordam a função estratégica que teve durante séculos.
Dentro das muralhas
O núcleo intramuros mantém uma coerência rara. O facto de a população se ter deslocado, ao longo do tempo, para zonas mais férteis fora das muralhas acabou por preservar o interior quase sem alterações. O resultado é um conjunto urbano onde cada detalhe parece encaixar na narrativa medieval.
A visita começa, idealmente, pela Porta da Vila. No Largo do Corro encontra-se a casa considerada a mais antiga da aldeia e o restaurante Dom Sancho, uma das poucas portas abertas no centro histórico.
Pelo caminho surgem o pelourinho quinhentista, a antiga Câmara e prisão, a Torre Sineira e várias casas senhoriais que testemunham a importância de Sortelha noutras épocas.
Pela Porta Nova, o percurso leva ao antigo Hospital e às ruínas da Igreja da Misericórdia, bem como às sepulturas antropomórficas escavadas na rocha. E, entre formações graníticas, destaca-se a Cabeça da Velha, cuja silhueta alimenta lendas e curiosidade.
Paisagem e silêncio
Do alto das muralhas, a vista abre-se sobre uma vasta faixa de território que, durante séculos, foi disputada entre Portugal e Espanha. O passeio pelo anel de pedra que circunda a aldeia é quase obrigatório: permite perceber a lógica defensiva do lugar e apreciar a paisagem da Beira Interior em toda a sua amplitude.
A proximidade da Serra da Estrela reforça o apelo da região, que combina património, natureza e percursos pedestres. Para quem gosta de caminhar, há vários trilhos sinalizados nos arredores.
Tradições que persistem
Sortelha tem hoje cerca de 450 habitantes, conhecidos como “lagartixos”. A emigração marcou a vida da aldeia, mas o turismo trouxe um novo fôlego. As lojas de artesanato exibem cestas de bracejo — uma tradição local — a par de mel, doces e licores regionais.
Em setembro, a feira medieval devolve à aldeia o ambiente de outros tempos. Durante um fim de semana, as ruas enchem-se de recriações históricas, música e figurinos que reforçam a ligação ao passado.
Um destino para descobrir devagar
Sortelha não se impõe com estrondo. Conquista pela coerência, pela paisagem e pela sensação de autenticidade. É um lugar para visitar sem pressa, atento ao som dos passos no granito e às histórias inscritas nas pedras.
Num país rico em aldeias históricas, mantém-se como uma das mais bem preservadas. E talvez seja essa fidelidade à sua identidade que a torna memorável.







