No coração da Serra da Lousã, acima dos 700 metros de altitude, a pequena aldeia de Aigra Velha resiste como um dos exemplos mais singulares de povoamento serrano em Portugal.
Integrada no concelho de Góis, esta aldeia faz parte da rede das Aldeias do Xisto, mas distingue-se claramente da maioria das localidades recuperadas para fins turísticos.
Aigra Velha não é um lugar requalificado nem preparado para visitas regulares. É, sobretudo, um povoado quase desabitado, onde permanece apenas um residente permanente.
Esta circunstância dá-lhe hoje um carácter raro: não é uma aldeia abandonada, mas uma aldeia suspensa, mantida viva pela presença discreta de quem ali continua a cuidar da terra e das casas.
Um urbanismo moldado pela defesa e pela sobrevivência
A organização do casario é um dos traços mais marcantes de Aigra Velha. As habitações em xisto estão encostadas umas às outras, formando um conjunto compacto que envolve um pátio central.
Este modelo não resulta de opções estéticas. Foi uma resposta direta às condições duras da montanha, à presença de gado e à necessidade de proteção face ao frio intenso e, no passado, aos ataques de animais selvagens.
À noite, os animais eram recolhidos para o interior deste espaço comum, funcionando a própria aldeia como abrigo coletivo.
O calor produzido pelo gado, a proximidade entre paredes e a quase inexistência de espaços vazios ajudavam a criar um microclima essencial para enfrentar os invernos rigorosos da serra.
A aldeia mais alta do concelho de Góis
Aigra Velha é geralmente apontada como a aldeia situada a maior altitude no concelho de Góis. Durante décadas, esse isolamento geográfico condicionou profundamente o quotidiano das famílias que ali viveram.
O acesso era difícil, sobretudo no inverno, e a vida baseava-se numa economia de subsistência, assente na pastorícia, em pequenas culturas agrícolas e na gestão comunitária de recursos como a água, o forno e os terrenos de uso comum.
A aldeia funcionava como uma pequena unidade autónoma, onde a cooperação entre vizinhos não era uma escolha social, mas uma condição de sobrevivência.
Um lugar ligado às antigas rotas da serra
A memória local associa Aigra Velha às antigas circulações serranas que atravessavam a Lousã, utilizadas para transporte de produtos agrícolas, lenha e, segundo a tradição oral, também de gelo e neve recolhidos nas zonas mais altas da serra.
Independentemente da dimensão real dessa actividade, a aldeia fazia parte de um território de passagem e de trabalho, profundamente ligado às dinâmicas da montanha e aos circuitos que ligavam o interior serrano aos vales e às vilas envolventes.
O último habitante
Hoje, a vida em Aigra Velha concentra-se na presença de um único morador permanente. É ele quem mantém abertos os acessos, limpa os terrenos mais próximos e preserva, no dia-a-dia, a memória prática de como se viveu na serra.
A aldeia deixou de ter escola, comércio ou serviços básicos. O ritmo é ditado pela luz, pelas estações e pelas tarefas agrícolas mínimas que ainda se realizam em redor das casas.
O contraste com outras aldeias de xisto, hoje reabilitadas e com actividade turística regular, é evidente. Em Aigra Velha não existe musealização do espaço nem infra-estruturas de visita.
A floresta a fechar o antigo território agrícola
À volta do núcleo habitado, a paisagem transformou-se profundamente nas últimas décadas. Onde existiam campos cultivados e pastagens, domina agora uma mancha florestal densa, resultado directo do abandono agrícola e da diminuição do pastoreio.
A vegetação aproxima-se lentamente das casas e dos muros, fechando antigos caminhos e tornando cada vez mais ténue a fronteira entre o povoado e a serra.
Esta transformação paisagística é comum em muitas zonas do interior, mas em Aigra Velha torna-se particularmente visível, pela escala reduzida da aldeia e pela ausência de actividade humana regular.
Um património frágil, mas vivo
Aigra Velha não é um conjunto de ruínas. As casas mantêm-se estruturalmente legíveis, o pátio central continua reconhecível e a organização do povoado preserva a lógica original.
O valor do lugar reside precisamente nesta continuidade mínima: enquanto houver alguém a viver ali, a aldeia permanece como espaço habitado e não apenas como vestígio arquitectónico.
Num território marcado pelo despovoamento acelerado, Aigra Velha tornou-se um símbolo silencioso de resistência serrana e de uma forma de habitar a montanha que quase desapareceu da Serra da Lousã.







