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As memórias esquecidas do abandonado (e em ruínas) convento de Monfurado

No coração da Serra de Monfurado, as ruínas de um convento franciscano contam uma história de fé, isolamento e abandono.

VxMag by VxMag
Jul 1, 2025
in Viagens
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Convento de Monfurado

Convento de Monfurado

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Escondido entre os relevos da Serra de Monfurado, no concelho de Montemor-o-Novo, ergue-se — ou melhor, resiste — o que resta do antigo Convento de Nossa Senhora do Castelo das Covas de Monfurado.

Apesar do avançado estado de degradação, este lugar guarda séculos de história, marcada por fé, isolamento e alguma ousadia.

A origem do convento remonta a finais do século XVII, quando um pequeno grupo de eremitas procurava, nas encostas da serra, um refúgio espiritual longe das tentações do mundo.

Viviam em cavernas e antigas minas romanas, deixadas ao abandono depois de séculos de exploração de ouro e prata. Entre eles destacava-se Baltasar da Encarnação, natural de Évora, que se tornou monge aos 15 anos e dizia ter visões de Nossa Senhora. Uma dessas visões levou-o a acreditar que deveria erguer ali um convento.

Sem recursos nem licença, Baltasar procurou apoio junto de João de Vilalobos e Vasconcelos, nobre da região, que, sensibilizado pela fé do monge, cedeu terrenos na serra.

Com o esforço dos habitantes locais, que ofereceram materiais e trabalho, a construção avançou. O convento ficou concluído em 1738, ano em que se celebrou a primeira missa.

O edifício seguia a simplicidade franciscana: igreja de nave única com capelas laterais, claustro de dois pisos, cripta, quartos modestos e espaços dedicados à oração, ao trabalho e ao acolhimento dos pobres.

Mas, apesar da sobriedade, foi também um centro cultural notável. Chegou a ter biblioteca com mais de mil livros, uma tipografia e uma oficina de arte sacra. Durante algum tempo, tornou-se ponto de peregrinação na região.

Com o passar dos anos, e sobretudo após a extinção das ordens religiosas no século XIX, o convento entrou em declínio. Atualmente, encontra-se em ruínas. O teto da igreja ruiu, o claustro foi vandalizado, a cripta está cheia de detritos, e os antigos quartos perderam qualquer vestígio de vida monástica.

Apesar de ter sido classificado como Imóvel de Interesse Público em 1977, essa proteção não travou o seu estado de abandono. Localizado em propriedade privada e de difícil acesso, o convento continua fora dos roteiros turísticos convencionais.

Ainda assim, não deixa de atrair quem procura lugares marcados pelo tempo: fotógrafos, praticantes de geocaching e curiosos que se deixam cativar pelas histórias que as pedras parecem sussurrar.

Visitar o Convento de Monfurado é, hoje, uma experiência que conjuga risco, introspeção e memória. Entre o mato e os escombros, sobrevive o testemunho de uma comunidade que escolheu a solidão como caminho de fé — e que deixou, na paisagem alentejana, um eco que resiste ao esquecimento.

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