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Viriato: o guerreiro Lusitano que afinal era espanhol

A figura do guerreiro lusitano foi usado pela ditadura para enaltecer as virtudes do povo português mas segundo alguns historiadores, Viriato era espanhol.

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Estátua de Viriato em Viseu

Viriato tem sido uma daquelas personagens ressurgentes, e quase sempre presente, na memória colectiva nacional. O termo “lusitano” é utilizado de uma forma bastante comum para identificar determinados elementos e características materiais ou imateriais ligados a Portugal e aos portugueses. No entanto, a historiografia sobre os lusitanos e Viriato tem abalado a relação directa entre ambos e Portugal, abalando e remetendo para o mito a suposta relação entre ambos os povos e territórios.

Lusitanos
Lusitanos comandados por Viriato a combater os Romanos

Para poder tirar algumas conclusões sobre o modo como surgiu e se desenvolveu a identificação e associação de Viriato à identidade nacional portuguesa importa fazer um breve périplo pela principal historiografia dedicada ao tema, na mesma medida em que se deve analisar também a restante produção literária erudita e criativa que ajudou a alicerçar a memória colectiva. Entre o que se sabe sobre a vida de Viriato e a lenda que se criou à sua volta vai um abismo de diferença. Tido como um pastor dos Montes Hermínios e chefe dos bravos lusitanos, conta-se que liderou a resistência contra Roma. Carlos Fabião, professor da Universidade de Lisboa e especialista na época romana, conta uma versão bem diferente. “Viriato não viveu nos Montes Hermínios (Serra da Estrela), mas sim na região que hoje corresponde à Andaluzia e Extremadura espanholas. Era um chefe tribal do séc. II a.C., mas o povo dos lusitanos é uma abstracção criada pelos autores romanos para designar quem vivia no Extremo Oeste da Península Ibérica.”

Viriato

As primeiras fontes a referirem Viriato surgem no século I a.C. (Mattoso, 2006), da autoria de Posidónio e Diodoro. Segundo José Mattoso terá sido o primeiro desses historiadores a descrever Viriato como “um herói puro e justo, porque nasceu e viveu em ambientes selvagens, não corrompidos pela decadência que a civilização acarreta”, enquanto que Diodoro terá ajudado a transmitir a imagem construída por Posidónio.

Viriato

Apesar de considerar estas primeiras fontes pouco sólidas José Mattoso afirma que do cruzamento dessa primeira historiografia com os posteriores autores greco-latinos será possível concluir que Viriato “teria nascido da Lusitânia, junto do Oceano” e que nada justifica a tradição de atribuir à Serra da Estrela como local do seu nascimento, pois nessas fontes o “Monte Hermínio” não surge em momento algum associado a Viriato ou às Guerras Lusitanas.

Viriato
Viriato

As fontes romanas descrevem as Guerras Lusitanas, situando-as na actual Andaluzia Espanhola, numa região muito mais próxima da civilização e núcleos urbanos mediterrânicos que do ocidente peninsular mais selvagem. Aí, na zona central e meridional da actual Espanha, Viriato parece ter sabido movimentar-se com mestria e conhecimento da região, tanto que obteve sucessos militares consideráveis. Isto parece colocar em causa a tese da uma origem mais ocidental e selvagem do chefe dos lusitanos. Carlos Fabião e Amílcar Guerra (1992) são muito contundentes em tentar fazer desmoronar o mito de Viriato e sua ligação a Portugal, que ainda tão vincadamente persiste na memória colectiva portuguesa. Enunciam para isso uma série de referências que importa lembrar, entre elas:

•A Lusitânia só adquire existência territorial depois da ocupação e organização administrativa romana.
•A Lusitânia não correspondeu ao actual território continental português.
•As fontes antigas têm muitas dificuldades em identificar e descrever os lusitanos.
•Não existem fontes que façam corresponder, sem dúvidas, o Monte Hermínio com a Serra da Estrela. Apesar disso Jorge de Alarcão defende a hipótese dos diversos acidentes geográficos do cento do atual território português poderem ser associados ao Monte Hermínio (Fabião & Guerra, 1992).
•A descrição de Posidónio era mais influenciada por intenções filosóficas que factos históricos.

Morte de Viriato

De notar que em 1940, na sequência da comemoração do centenário da dupla fundação de Portugal, é inaugurada a estátua de Viriato em Viseu. O discurso ai proferido por Lopes Dias, baseado nas descrições literárias humanistas, aproveita o mito para funções nacionalistas (Fabião & Guerra, 1992), tão caras ao Estado Novo.

Viriato
Viriato

Apesar desta primeira associação dos desígnios nacionalistas do regime do Estado Novo a Viriato, o regime haveria posteriormente de renegar o chefe lusitano. Foi difícil posteriormente conciliar a identidade nacional, herdeira da romanização, com um Viriato opositor a Roma. Esse paradoxo aprofundou-se ainda mais com a Guerra Colonial, pois Viriato simbolizava a resistência indígena perante o imperialismo estrangeiro, nesse caso o português. Talvez por ai se explique o desaparecimento de Viriato dos manuais escolares a partir de 1968.

Viriato

A memória colectiva portuguesa persiste em relembrar Viriato, sentindo-se honrada na ligação que estabelece com esse símbolo e arquétipo nacional. Ainda que a historiografia, já desde o século XIX, tenha definido a história de Viriato e sua ligação aos portugueses como mítica, Viriato não desaparece da memória dos portugueses. O herói lusitano parece querer resistir à historiografia com a mesma bravura e determinação que terá resistido aos romanos.

Viriato
Viriato

Assim, o mito de Viriato, mesmo podendo não ser história factual dá origem indirecta à história nacional, de como se tentou alicerçar a identidade nacional num símbolo mais antigo que a própria nacionalidade. Essa história demonstra a existência de um mito quase vivo, que conseguiu sobreviver aos séculos, sendo constantemente adaptado conforme os interesses dos homens, especialmente o interesse de alguns portugueses. Ainda que de uma forma mitológica, Viriato é português, nem que seja por empréstimo utilitário.

Viriato
Viriato

Quanto aos factos históricos, dificilmente poderão sustentar o mito comum de Viriato, mas certo é que também não o negam completamente, ainda que as ligações aos portugueses possam ser ténues, dada a distância dos séculos e as muitas movimentações políticas, culturais e de povos que se entrepõem entre ele e os portugueses. A verdade é que Viriato ainda vive na memória colectiva dos portugueses, contribuindo assim para a sua identidade colectiva.

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