À medida que a estrada se afina e dá lugar ao trilho, a montanha impõe o seu próprio ritmo. Lá em cima, nas brandas de Val de Poldros, o silêncio não é ausência — é presença constante. Um silêncio espesso, feito de vento, de granito e de horizonte aberto.
Val de Poldros situa-se no concelho de Monção, já dentro do território do Parque Nacional da Peneda-Gerês, numa área de altitude onde a ocupação humana sempre foi sazonal e profundamente ligada à pastorícia.
Não é, por isso, uma aldeia no sentido habitual. É uma branda — um povoado de verão, construído para acompanhar a transumância e o movimento do gado para os pastos altos.
Chegar aqui é entrar num outro tempo da serra.
As brandas e a lógica da montanha
Durante séculos, as populações do vale dividiram o ano entre dois mundos. No inverno, permaneciam nas inverneiras, protegidas das intempéries. No verão, subiam para as brandas, como Val de Poldros, aproveitando os lameiros de altitude.
Esta migração anual moldou a paisagem e a arquitetura. As casas surgem agrupadas, compactas, sem qualquer preocupação estética no sentido urbano do termo. Tudo obedece à funcionalidade e à resistência.
Casas erguidas sem argamassa
Em Val de Poldros, o granito é matéria-prima e estrutura. As chamadas casarotas foram levantadas com pedra seca, bloco sobre bloco, sem argamassa.
A técnica não é rudimentar — é profundamente adaptada ao clima da montanha. As juntas permitem pequenas dilatações, libertam humidade e ajudam a enfrentar variações térmicas extremas. As paredes espessas protegem do vento e do frio. No interior, o espaço é mínimo, pensado para guardar alfaias, abrigar pessoas e, muitas vezes, animais.
Aqui, cada casa é um abrigo de sobrevivência.
Um povoado quase vazio
Hoje, Val de Poldros já não acompanha o vaivém sazonal das famílias. A transumância praticamente desapareceu e a vida permanente resume-se, segundo a memória local, a um único habitante.
As restantes casas permanecem fechadas grande parte do ano. Algumas são usadas esporadicamente como apoio à pastorícia ou como refúgio de fim de semana. Outras vão cedendo, lentamente, ao peso da neve e da vegetação.
Ainda assim, Val de Poldros não é uma aldeia abandonada. É um lugar suspenso.
O fim da transumância
O declínio das brandas acompanha uma transformação mais ampla do mundo rural minhoto. A modernização da agricultura, a mecanização e a alteração dos modelos de criação de gado tornaram dispensável a subida anual aos pastos de altitude.
A serra deixou de ser espaço de trabalho regular para passar a ser, sobretudo, território de passagem, de lazer e de contemplação.
O que permanece é a arquitectura, intacta na sua lógica original, e uma paisagem que continua a denunciar, em cada muro e em cada curral, a antiga intensidade de uso humano.
Um lugar para perceber a Peneda por dentro
Val de Poldros encontra-se na vertente da Serra da Peneda, uma das áreas mais agrestes e menos transformadas do parque nacional. Não há sinalética turística, cafés nem centros interpretativos. Há apenas o casario de granito, os caminhos de terra e a montanha aberta.
É precisamente essa ausência de enquadramento que faz de Val de Poldros um dos lugares mais reveladores da cultura serrana do Alto Minho.
Aqui percebe-se, com clareza, como a ocupação humana foi desenhada a partir da geografia e não contra ela.
Um refúgio onde o silêncio ainda conta histórias
Passear pelas ruelas estreitas, entre muros de pedra e casas fechadas, é perceber que o valor de Val de Poldros não está na monumentalidade, mas na autenticidade.
O silêncio não é decorativo. É herança.
É o resultado de um modelo de vida que desapareceu quase sem deixar registos escritos, mas que permanece gravado na disposição das casas, nos currais vazios e nos caminhos que continuam a ligar a branda às encostas.
Val de Poldros não é apenas um refúgio de montanha. É um dos últimos retratos intactos da cultura da transumância no norte de Portugal — um lugar onde a solidão não representa abandono, mas a continuação discreta de uma forma antiga de habitar a serra.







