Nos campos abertos da Beira Interior, nos arredores de Belmonte, a silhueta de Centum Cellas impõe-se pela verticalidade. Três níveis de janelas rasgam o granito, criando a imagem de uma torre que parece inacabada, isolada no meio de olivais e terrenos agrícolas.
Ao contrário da maioria das ruínas romanas, que se apresentam dispersas pelo solo, aqui a construção mantém-se erguida. Não há muralhas envolventes nem um conjunto monumental claramente definido. Essa solidão reforça o impacto visual e alimenta, há séculos, a imaginação de quem a observa.
Da lenda às evidências arqueológicas
Durante muito tempo, o nome “Cem Celas” inspirou interpretações lendárias: prisão composta por múltiplas divisões, templo dedicado a divindades antigas ou estrutura militar. As investigações arqueológicas mais recentes apontam, contudo, para uma explicação mais concreta.
A torre seria o núcleo de prestígio de uma vasta villa romana pertencente a Lucius Caecilius, um negociante influente ligado à exploração mineira. O estanho, abundante na região, era recurso estratégico no Império Romano, essencial para a produção de ligas metálicas como o bronze.
Centum Cellas não funcionaria como posto defensivo, mas como centro administrativo e residencial de um complexo agrícola e mineiro.
As amplas janelas — hoje surpreendentes para quem espera uma fortificação — permitiam iluminar os pisos superiores, sinalizando prosperidade junto da via romana que ligava Mérida à zona da atual Guarda.
Reutilização medieval
Com o declínio romano, a função original perdeu-se, mas o edifício não desapareceu da paisagem histórica. Na Idade Média, Fernão Cabral, pai de Pedro Álvares Cabral e alcaide-mor de Belmonte, terá procurado adaptar a estrutura a residência fortificada.
Algumas alterações na cantaria sugerem essa tentativa de reaproveitamento. A torre, já antiga nessa época, mantinha peso simbólico e estratégico. Esta sobreposição de tempos — romano e medieval — transforma Centum Cellas num verdadeiro palimpsesto arquitetónico.
Engenharia visível a céu aberto
Escavações modernas revelaram fundações de edifícios anexos, confirmando que a torre fazia parte de um complexo mais amplo. No entanto, é precisamente a sua nudez estrutural que mais impressiona.
Sem telhados nem pavimentos preservados, observam-se claramente os encaixes das antigas vigas de madeira que separavam os três pisos. Os blocos de granito, talhados com precisão e colocados em muitos pontos com recurso mínimo a argamassa, evidenciam a mestria construtiva romana.
A resistência do granito regional explica a sobrevivência da estrutura ao longo de quase dois mil anos, apesar das adaptações medievais e do posterior abandono.
Um monumento que permanece pergunta
Visitar Centum Cellas é confrontar-se com um monumento que, apesar dos avanços científicos, continua a suscitar interrogações. A hipótese da villa ligada ao negócio do estanho é hoje a mais consistente, mas o conjunto original não está totalmente revelado.
A torre ergue-se solitária na paisagem da Beira Interior, cruzando economia romana, reutilização medieval e memória contemporânea. Mais do que uma ruína, é um ponto de encontro entre épocas.
Centum Cellas permanece de pé não apenas como vestígio arqueológico, mas como símbolo de continuidade. Cada janela aberta no granito sugere uma história que atravessa séculos — e que continua a ser interpretada à luz do presente.







