Erguida no coração de Chaves, a Ponte de Trajano continua a ligar, de forma literal e simbólica, as duas margens do Rio Tâmega. Poucos monumentos em Portugal permitem observar, com tanta clareza, a continuidade entre a engenharia romana e a vida urbana contemporânea.
Construída no início do século II, quando a cidade era conhecida como Aquae Flaviae, a ponte integrava um eixo viário decisivo para a circulação de pessoas, mercadorias e tropas entre o interior da Hispânia e o Noroeste peninsular.
A sua função foi, desde a origem, prática e estratégica: garantir a travessia regular de um rio sujeito a cheias e assegurar a ligação permanente a um dos mais importantes núcleos termais e administrativos da região.
Uma obra pública promovida pelas comunidades locais
No centro da ponte erguem-se duas colunas de granito, conhecidas como o chamado Padrão dos Povos. As inscrições latinas aí gravadas constituem um dos documentos epigráficos mais relevantes da engenharia romana em território português.
As colunas registam os nomes de várias comunidades indígenas da região — entre as quais os Bibali, os Coelerni e os Interamici — que participaram no financiamento e na construção da obra, durante o reinado do imperador Trajano.
Este dado é particularmente significativo. A ponte não resulta apenas de uma imposição administrativa vinda de Roma, mas de um projecto colectivo de interesse regional, orientado para facilitar o escoamento de produtos, a mobilidade local e o acesso às termas de Aquae Flaviae, um dos principais polos urbanos do Noroeste hispânico.
Engenharia pensada para resistir ao rio
A estrutura da ponte assenta num sistema de arcos de volta perfeita, apoiados em pilares robustos, dotados de talhamares que reduzem o impacto da corrente durante as cheias. Esta solução construtiva explica, em grande parte, a extraordinária longevidade da obra.
Ao contrário de muitas travessias posteriores, destruídas ou profundamente alteradas ao longo dos séculos, a ponte romana de Chaves manteve sempre a sua função essencial.
Durante grande parte da sua história foi o principal ponto de passagem sobre o Tâmega, suportando tráfego pedonal, animal, rodoviário e, já em época recente, automóvel.
Só em 2008 a circulação motorizada foi definitivamente retirada do tabuleiro, numa decisão que procurou proteger a estrutura e devolver a travessia ao uso pedonal.
Dois mil anos de uso contínuo
Um dos aspectos mais notáveis da Ponte de Trajano é a continuidade da sua utilização. A travessia manteve-se activa após o fim da administração romana, atravessou a Alta Idade Média, o período da formação do reino de Portugal e os séculos de conflitos raianos com Castela, sem nunca perder a sua relevância funcional.
Em cada uma dessas épocas, a ponte serviu como eixo de circulação, ponto de controlo e elemento central na organização do espaço urbano. Chaves cresceu a partir desta ligação sobre o rio, e a própria malha da cidade continua a estruturar-se em função da travessia.
Mais do que um vestígio arqueológico, trata-se de uma infra-estrutura herdada do mundo romano que permaneceu integrada no quotidiano da cidade.
Um património vivo no centro da cidade
Hoje, atravessar a ponte é percorrer um espaço onde a arqueologia e a vida urbana coexistem sem mediações. As marcas de desgaste visíveis no granito resultam de séculos de circulação contínua, não de abandono.
A ponte permanece como um dos raros exemplos, em Portugal, de uma obra pública romana que nunca perdeu a sua função original.
É essa continuidade de uso que lhe confere um valor histórico singular: permite observar como uma estrutura concebida há cerca de dois mil anos continua a responder às necessidades básicas de mobilidade de uma cidade moderna.
Em Chaves, a herança romana não se limita às ruínas ou aos museus. A ponte mantém-se como parte activa da paisagem urbana e como testemunho da capacidade técnica e organizativa de um mundo que deixou marcas profundas no território.






