Erguido sobre uma escarpa que domina o vale do Rio Mondego, o Castelo de Montemor-o-Velho continua a marcar, de forma discreta mas firme, a paisagem da vila de Montemor-o-Velho.
Trata-se de um dos mais antigos postos de vigilância do centro do país, associado a séculos de disputas territoriais, estratégias militares e decisões políticas que ajudaram a moldar o território português.
A sua posição dominante explica, em grande parte, a importância que sempre teve. Controlar este ponto significava vigiar o curso do rio, os acessos ao litoral e as ligações entre o norte e o sul da Península. É essa lógica geográfica, mais do que a imponência arquitectónica, que faz de Montemor-o-Velho um dos castelos mais relevantes da região.
Entre o mundo islâmico e a consolidação do reino
A ocupação do morro é muito anterior à Idade Média, mas a configuração militar que hoje se reconhece remonta ao final do século X. Em 991, a fortaleza foi reconstruída por Almançor, figura central do poder islâmico da Península Ibérica, integrando Montemor numa linha defensiva avançada a norte.
Durante décadas, o castelo esteve no centro de uma fronteira instável, alternando entre domínio muçulmano e cristão. A sua integração definitiva no espaço político que daria origem a Portugal ocorre no contexto da expansão liderada por D. Afonso Henriques.
Mais do que uma simples conquista militar, tratou-se da incorporação de uma estrutura estratégica já testada, adaptada à vigilância permanente do território e às cheias do Mondego.
A implantação do castelo, a leitura do relevo e a organização dos recintos defensivos revelam bem essa herança mista, onde soluções de engenharia islâmica se cruzam com sucessivas campanhas de reforço promovidas pelos primeiros reis portugueses.
Uma das decisões mais marcantes da história portuguesa
Montemor-o-Velho ficou igualmente ligado a um dos episódios mais conhecidos da história medieval portuguesa. Em janeiro de 1355, foi neste castelo que D. Afonso IV reuniu o seu conselho para decidir o destino de Inês de Castro.
A relação entre Inês e o herdeiro do trono, D. Pedro, levantava sérias preocupações políticas, sobretudo pela influência de famílias castelhanas na corte. A decisão tomada em Montemor acabaria por conduzir à execução de Inês, poucos dias depois, em Coimbra.
Este episódio confere ao castelo uma dimensão que ultrapassa a sua função militar. As muralhas que durante séculos serviram para travar inimigos externos foram também cenário de uma das escolhas políticas mais duras da monarquia portuguesa, onde a estabilidade do reino se sobrepôs a qualquer consideração pessoal.
Um castelo marcado pela guerra moderna
Já em época contemporânea, o castelo voltou a ser afectado por conflitos armados. Durante as campanhas napoleónicas em Portugal, a fortaleza foi utilizada como quartel por tropas associadas a Napoleão Bonaparte, sofrendo danos significativos nos seus espaços interiores.
Tal como aconteceu com muitos outros edifícios militares medievais, o uso intensivo e a adaptação às necessidades de um exército moderno aceleraram a degradação de várias estruturas.
O olhar sobre o vale transformado
Hoje, o castelo observa uma paisagem profundamente diferente. O antigo vale pantanoso deu lugar a extensos campos de arroz, que transformaram por completo a economia local e o enquadramento visual do monumento.
Apesar dessas mudanças, Montemor-o-Velho mantém uma relação directa com o território que sempre vigiou. Isolado no topo da colina, continua a ser um ponto de referência visual e histórico, testemunhando a longa transformação do vale do Mondego e a sucessão de épocas que por ali passaram.
Mais do que um cenário de visita, o castelo permanece como um espaço de memória, onde se cruzam a fronteira entre civilizações, a afirmação do reino e uma das decisões políticas mais marcantes da história portuguesa.






