Há um silêncio denso nas margens do rio Varosa. Não é apenas o silêncio da paisagem rural, mas o de um lugar que sobreviveu a sucessivas camadas de civilização, fé e esquecimento.
Entrar na Capela de São Pedro de Balsemão é recuar a um tempo em que Portugal ainda não existia como ideia política, quando o mundo romano se desfazia lentamente e a Península atravessava uma das suas fases mais instáveis.
Situada nos arredores de Lamego, esta pequena igreja não impressiona pela escala nem pela exuberância decorativa. Impressiona pela persistência.
As suas paredes guardam uma memória muito anterior à fundação da nacionalidade e, de forma discreta, lembram que a história do território se construiu, muitas vezes, longe dos grandes centros de poder.
Aqui, tudo se revela no detalhe: o granito reaproveitado, as inscrições antigas integradas nos muros, a luz contida que atravessa aberturas estreitas e sublinha a sobriedade do espaço. São Pedro de Balsemão não proclama a sua antiguidade — deixa-a adivinhar.
Um templo erguido sobre as ruínas de um império
A capela é um dos mais importantes testemunhos da arquitetura religiosa de época visigótica em Portugal. A sua fundação remonta ao século VII, num período de transição profunda, em que antigas estruturas romanas iam sendo progressivamente integradas numa nova realidade política e religiosa.
A construção recorreu, de forma sistemática, ao reaproveitamento de materiais provenientes de uma antiga villa romana existente na área envolvente. Colunas, silhares e elementos decorativos foram integrados na nova igreja, criando um edifício que é, literalmente, feito de fragmentos de mundos diferentes.
Entre esses materiais reutilizados encontram-se também inscrições e pedras votivas de origem pagã, hoje incorporadas nos alicerces e nas paredes. Este gesto, mais prático do que simbólico, acabou por cristalizar no próprio edifício a passagem de uma religiosidade antiga para o cristianismo primitivo que se afirmava na região.
A igreja que ficou escondida dentro de um palácio
A história de São Pedro de Balsemão ganha um novo capítulo no século XVIII, quando a capela é integrada no Paço dos Pintos. O edifício senhorial foi construído em torno da antiga igreja, que passou a funcionar como capela privada da família proprietária.
À primeira vista, esta solução poderia ter significado a descaracterização do templo. Na prática, foi precisamente essa integração que o protegeu durante décadas.
Enquanto muitos edifícios de origem visigótica acabaram abandonados, profundamente transformados ou simplesmente destruídos, Balsemão manteve-se preservada no interior do conjunto residencial.
No interior, o contraste é evidente. A simplicidade estrutural da nave, marcada por soluções construtivas muito antigas, convive com elementos de épocas posteriores, entre os quais se destaca o sarcófago gótico de D. Afonso Pires, bispo do Porto no século XIV, que escolheu este local discreto para o seu sepultamento.
Um símbolo silencioso de resistência
Mais do que uma curiosidade arquitetónica, São Pedro de Balsemão é um retrato concentrado da longa duração histórica do território. Atravessou o colapso do Império Romano, o período visigótico, a presença islâmica e a formação do reino português sem perder a sua função essencial.
Os restauros realizados ao longo do século XX procuraram devolver ao edifício uma leitura mais próxima da sua traça primitiva, valorizando o carácter austero e depurado que hoje define o espaço. O resultado é um templo despojado, quase austero, que convida mais à contemplação do que à visita apressada.
Num tempo marcado por construções rápidas e soluções efémeras, a Capela de São Pedro de Balsemão lembra que a força de um lugar não depende da monumentalidade, mas da sua capacidade de permanecer.
Aqui, a identidade constrói-se na continuidade — e na forma como a pedra resiste, geração após geração, à mudança dos impérios.







