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Siglas Poveiras: a misteriosa herança dos Vikings na Póvoa de Varzim

As siglas poveiras são marcas de família herdadas dos Vikings, usadas por pescadores da Póvoa de Varzim durante mil anos. Algumas famílias ainda as usam hoje.

VxMag by VxMag
Jun 9, 2026
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Nas portas de capelas do noroeste peninsular, gravadas na pedra à navalha, encontram-se marcas que não pertencem a nenhum alfabeto conhecido.

Não são letras latinas, não são árabes, não são runas escandinavas — ou melhor, são qualquer coisa que se assemelha a runas, mas que evoluiu durante séculos numa direcção própria, numa comunidade piscatória do litoral português.

Chamam-se siglas poveiras. Foram usadas na Póvoa de Varzim durante pelo menos mil anos. E a teoria mais aceite para a sua origem é que chegaram com os Vikings, entre os séculos IX e X.

Para que serviam

Os pescadores da Póvoa não sabiam, na sua maioria, ler o alfabeto latino. Mas tinham necessidades práticas que exigiam um sistema de registo: saber a quem pertencia cada peixe na rede, registar dívidas no livro de conta fiada, marcar os pertences de cada barco, identificar a tripulação. A sigla resolvia tudo isso.

O vendedor que não sabia escrever nomes escrevia siglas — e reconhecia a sigla de cada cliente com a mesma naturalidade com que reconhecemos um nome escrito.

O valor em dinheiro era representado por rodelas e riscos que designavam vinténs e tostões, desenhados a seguir à marca do devedor. O peixe apanhado era golpeado com a sigla do dono da rede em pontos específicos do corpo, entregue depois à mulher do proprietário com a identificação intacta.

Cada tripulação tinha uma sigla colectiva. Se um pescador mudava de barco, mudava de sigla — a identidade era da embarcação, não do homem.

A herança escandinava

A semelhança com os bomärken escandinavos — as marcas de família usadas na Noruega, Suécia e Dinamarca com funções idênticas — não é coincidência. Os Vikings percorreram o litoral atlântico ibérico nos séculos IX e X, e a teoria é que a prática das marcas familiares hereditárias ficou na Póvoa quando as expedições passaram.

O sistema de transmissão confirma a ligação: o pai passava a sua sigla para o filho mais novo — não o mais velho, o mais novo, como era costume na antiga Bretanha e na Dinamarca — e os filhos mais velhos recebiam a mesma sigla acrescida de traços chamados pique.

O primogénito tinha um pique, o segundo dois, e assim sucessivamente. O filho mais novo herdava a sigla sem alteração, porque seria ele o responsável por cuidar dos pais na velhice — uma lógica de herança que é nórdica, não ibérica.

O que sobreviveu e o que se perdeu

As siglas ainda podem ser encontradas gravadas nas igrejas da Póvoa de Varzim — a Igreja Matriz, a Igreja da Lapa, a Capela de Santa Cruz em Balasar — e em capelas do Minho e da Galiza onde os pescadores poveiros marcavam a sua passagem.

Em Santa Trega, do lado espanhol, existe uma escultura inaugurada em 1991 em homenagem às siglas, numa cerimónia em que pescadores da Póvoa subiram ao monte para rezar à padroeira e pedir ventos favoráveis, repetindo rituais que ninguém sabe há quantas gerações existem.

A Casa dos Pescadores da Póvoa de Varzim ainda aceita as siglas como forma válida de assinatura. Algumas famílias continuam a usá-las nos barracões e nos pertences.

O que se perdeu não volta. A mesa da sacristia da antiga Igreja da Misericórdia tinha gravadas milhares de siglas — os pescadores escreviam a sua marca quando se casavam, como registo do evento. A mesa foi destruída quando a igreja foi demolida. Não há registo do que ali estava.

António dos Santos Graça estudou e catalogou as siglas no livro Epopeia dos Humildes, em 1952. É a principal fonte. Mas não há política municipal de salvaguarda, e com a reestruturação dos barracões de praia, muitas das marcas que ainda existiam desapareceram sem que ninguém as documentasse.

Os Vikings passaram pela Póvoa há mil anos e deixaram um sistema de escrita que sobreviveu até ao século XXI. É o tipo de persistência que a história raramente planeia — acontece por inércia, por orgulho familiar, por hábito transmitido sem que ninguém decida conscientemente preservar.

E vai desaparecendo da mesma forma: aos poucos, sem que ninguém decida conscientemente deixar ir.

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