Nas portas de capelas do noroeste peninsular, gravadas na pedra à navalha, encontram-se marcas que não pertencem a nenhum alfabeto conhecido.
Não são letras latinas, não são árabes, não são runas escandinavas — ou melhor, são qualquer coisa que se assemelha a runas, mas que evoluiu durante séculos numa direcção própria, numa comunidade piscatória do litoral português.
Chamam-se siglas poveiras. Foram usadas na Póvoa de Varzim durante pelo menos mil anos. E a teoria mais aceite para a sua origem é que chegaram com os Vikings, entre os séculos IX e X.
Para que serviam
Os pescadores da Póvoa não sabiam, na sua maioria, ler o alfabeto latino. Mas tinham necessidades práticas que exigiam um sistema de registo: saber a quem pertencia cada peixe na rede, registar dívidas no livro de conta fiada, marcar os pertences de cada barco, identificar a tripulação. A sigla resolvia tudo isso.
O vendedor que não sabia escrever nomes escrevia siglas — e reconhecia a sigla de cada cliente com a mesma naturalidade com que reconhecemos um nome escrito.
O valor em dinheiro era representado por rodelas e riscos que designavam vinténs e tostões, desenhados a seguir à marca do devedor. O peixe apanhado era golpeado com a sigla do dono da rede em pontos específicos do corpo, entregue depois à mulher do proprietário com a identificação intacta.
Cada tripulação tinha uma sigla colectiva. Se um pescador mudava de barco, mudava de sigla — a identidade era da embarcação, não do homem.
A herança escandinava
A semelhança com os bomärken escandinavos — as marcas de família usadas na Noruega, Suécia e Dinamarca com funções idênticas — não é coincidência. Os Vikings percorreram o litoral atlântico ibérico nos séculos IX e X, e a teoria é que a prática das marcas familiares hereditárias ficou na Póvoa quando as expedições passaram.
O sistema de transmissão confirma a ligação: o pai passava a sua sigla para o filho mais novo — não o mais velho, o mais novo, como era costume na antiga Bretanha e na Dinamarca — e os filhos mais velhos recebiam a mesma sigla acrescida de traços chamados pique.
O primogénito tinha um pique, o segundo dois, e assim sucessivamente. O filho mais novo herdava a sigla sem alteração, porque seria ele o responsável por cuidar dos pais na velhice — uma lógica de herança que é nórdica, não ibérica.
O que sobreviveu e o que se perdeu
As siglas ainda podem ser encontradas gravadas nas igrejas da Póvoa de Varzim — a Igreja Matriz, a Igreja da Lapa, a Capela de Santa Cruz em Balasar — e em capelas do Minho e da Galiza onde os pescadores poveiros marcavam a sua passagem.
Em Santa Trega, do lado espanhol, existe uma escultura inaugurada em 1991 em homenagem às siglas, numa cerimónia em que pescadores da Póvoa subiram ao monte para rezar à padroeira e pedir ventos favoráveis, repetindo rituais que ninguém sabe há quantas gerações existem.
A Casa dos Pescadores da Póvoa de Varzim ainda aceita as siglas como forma válida de assinatura. Algumas famílias continuam a usá-las nos barracões e nos pertences.
O que se perdeu não volta. A mesa da sacristia da antiga Igreja da Misericórdia tinha gravadas milhares de siglas — os pescadores escreviam a sua marca quando se casavam, como registo do evento. A mesa foi destruída quando a igreja foi demolida. Não há registo do que ali estava.
António dos Santos Graça estudou e catalogou as siglas no livro Epopeia dos Humildes, em 1952. É a principal fonte. Mas não há política municipal de salvaguarda, e com a reestruturação dos barracões de praia, muitas das marcas que ainda existiam desapareceram sem que ninguém as documentasse.
Os Vikings passaram pela Póvoa há mil anos e deixaram um sistema de escrita que sobreviveu até ao século XXI. É o tipo de persistência que a história raramente planeia — acontece por inércia, por orgulho familiar, por hábito transmitido sem que ninguém decida conscientemente preservar.
E vai desaparecendo da mesma forma: aos poucos, sem que ninguém decida conscientemente deixar ir.







