No Algarve de agosto, encontrar uma aldeia onde a água corre durante todo o ano é uma surpresa genuína. Querença fica no alto de um pequeno monte, na transição entre o barrocal e a serra, num ponto onde as nascentes são abundantes por razões geológicas que o resto da região não partilha.
Essa água explica tudo o resto: a fertilidade dos campos em redor, a fixação da população, a gastronomia que não precisa de recorrer ao mar para se definir.
A aldeia pertence ao concelho de Loulé e está a menos de meia hora do litoral mais movimentado do Algarve. Podiam ser 200 quilómetros.
A aldeia e o que a água criou
As casas caiadas descem pela encosta com a irregularidade característica das aldeias que cresceram sem plano. No topo, a Igreja Matriz organiza o espaço com a autoridade discreta que as igrejas de aldeia costumam ter — sem ostentação, sem o turismo fotográfico das igrejas da costa.
Percorrer os becos de Querença a pé revela a relação que a aldeia tem com a água em cada detalhe: as levadas que ainda correm, os tanques de rega, a vegetação mais densa do que seria de esperar a esta altitude no Algarve interior.
A gastronomia é o reflexo mais imediato desta abundância. A galinha cerejada — prato de origem árabe, preparada com romãs e especiarias — é o mais característico de Querença.
O xerém, o galo de cabidela, o javali e o coelho da serra completam uma ementa que não tem nada a ver com a fritada de peixe que define o litoral.
Há também cerca de 16 variedades de licores locais, com o de medronho a liderar — destilado do fruto do medronheiro, árvore que cresce em toda a serra algarvia e que em Querença tem presença suficiente para sustentar uma tradição.
A Fonte da Benémola
A poucos minutos da aldeia, a Paisagem Protegida da Fonte da Benémola é um dos raros pontos do Algarve onde a água corre durante todo o ano, mesmo em setembro.
O trilho oficial tem 4,5 quilómetros circulares, de dificuldade fácil, e percorre as margens do curso de água por vegetação ribeirinha — amieiros, freixos, loendros — com fauna que a proteção ambiental ajudou a preservar. Lontras, rãs, libélulas — a biodiversidade aqui é de zona húmida, não de Algarve seco.
É o tipo de percurso que se faz de manhã cedo, antes do calor, e que em qualquer outro mês que não agosto tem o trilho quase para si.
O que fica em redor
A aldeia de Tôr fica a pouca distância, com uma ponte romana que a maioria dos visitantes não conhece. Estoi tem o palácio do mesmo nome — um edifício rococó do século XVIII com jardins em terraço — e as ruínas romanas de Milreu, um dos complexos arqueológicos romanos mais bem conservados do sul de Portugal.
Alte fica a menos de meia hora, com as suas piscinas naturais e a Cascata da Queda do Vigário. São duas aldeias com lógicas diferentes — Alte mais ligada à água e à ribeira, Querença mais ao monte e à serra — mas que se complementam numa visita à mesma região.
Ao fim da tarde, com o sol já baixo sobre o barrocal e o cheiro a ervas aromáticas a subir da encosta, Querença tem a qualidade de silêncio que o Algarve interior ainda guarda em alguns pontos.
A água corre algures abaixo da aldeia, como correu sempre — antes dos romanos, antes dos árabes que deixaram a galinha cerejada, antes de tudo o que veio depois. Esse som constante é o melhor argumento para ficar mais um dia.







