A memória do grande sismo de 1755 continua presente na história e na cultura nacionais. Durante muito tempo, porém, a possibilidade de um maremoto foi encarada como um cenário distante.
A realidade geológica mostra o contrário: a posição de Portugal, junto à zona de contacto entre placas no Atlântico Nordeste, coloca a costa portuguesa — em particular o Algarve e a área de Lisboa — numa faixa de risco que não pode ser ignorada.
Hoje, com redes de vigilância sísmica mais densas e sistemas de alerta mais rápidos, a questão deixou de ser apenas se um tsunami poderá voltar a atingir o país. O debate centra-se sobretudo na capacidade de resposta das autoridades e da população nos primeiros minutos após um grande sismo no mar.
A vulnerabilidade geográfica da costa portuguesa
O território continental situa-se numa zona tectónica complexa, onde podem ocorrer sismos submarinos com potencial para gerar ondas de grande energia. A configuração da plataforma continental e das bacias oceânicas adjacentes pode, em determinadas circunstâncias, amplificar o efeito das ondas à chegada à costa.
Um dos principais factores de risco é o tempo extremamente reduzido de reação. Em cenários considerados plausíveis, a primeira onda poderá atingir o sul do país em cerca de 15 a 20 minutos, chegando à região de Lisboa entre 30 e 40 minutos depois. Este intervalo muito curto limita a margem de atuação dos serviços de emergência.
O sistema nacional de aviso e monitorização
Portugal dispõe atualmente de um sistema de vigilância sísmica e do nível do mar operado pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera. O centro de alerta acompanha em tempo quase real a actividade sísmica regional e internacional, avaliando a probabilidade de geração de tsunami.
Nos últimos anos, foram também instalados sistemas de aviso sonoro e painéis de evacuação em zonas costeiras de maior afluência, sobretudo na frente ribeirinha de Lisboa e em vários municípios do Algarve. Apesar deste progresso, a cobertura está longe de ser uniforme ao longo de toda a costa.
Níveis atuais de preparação
De forma sintética, o estado de preparação pode ser caracterizado da seguinte forma:
- Monitorização e deteção – nível elevado, com boa capacidade de identificação rápida do evento.
- Sinalização e rotas de evacuação – em expansão, mas ainda concentradas nas áreas mais turísticas e urbanas.
- Sensibilização nas escolas – regular, com impacto positivo a médio e longo prazo.
- Resistência do edificado – limitada, sobretudo em zonas históricas e ribeirinhas.
Este último ponto é frequentemente apontado como um dos mais frágeis, dado o envelhecimento de grande parte do parque habitacional junto ao litoral.
O papel dos alertas no telemóvel
Uma das ferramentas mais relevantes em desenvolvimento é o sistema de alertas por difusão celular, conhecido como Cell Broadcast. Este mecanismo permite enviar mensagens de emergência para todos os telemóveis ligados às antenas de uma determinada área.
A utilidade do sistema depende, no entanto, de um factor decisivo: a população saber como reagir ao receber o aviso. As recomendações técnicas são claras — deslocar-se imediatamente para zonas altas, a pé sempre que possível, evitando a utilização do automóvel para não bloquear as vias de evacuação.
O que ainda falta melhorar
Apesar da evolução registada na última década, vários especialistas continuam a apontar lacunas importantes:
- Ordenamento do território, com forte ocupação urbana em zonas costeiras de baixa cota.
- Exercícios de evacuação em larga escala, sobretudo em áreas turísticas, ainda pouco frequentes.
- Conhecimento público dos sinais naturais de perigo, como o recuo súbito do mar, que continua a ser pouco reconhecido por uma parte significativa da população.
Em Portugal realizam-se exercícios nacionais de autoproteção, como o A Terra Treme, mas a simulação específica de evacuação por tsunami permanece limitada.
Entre a tecnologia e a preparação das pessoas
Portugal está hoje muito mais preparado do que há vinte anos, sobretudo ao nível da deteção e da capacidade técnica de acompanhamento dos fenómenos sísmicos. Ainda assim, a eficácia real de qualquer sistema de alerta depende, em última instância, da reação da população nos primeiros minutos.
A formação contínua, a sinalização clara no espaço público e a integração do risco de tsunami no planeamento urbano continuam a ser elementos centrais para reduzir perdas humanas num cenário extremo que, embora pouco frequente, é cientificamente possível.






