Natureza

Porque é que o Homo sapiens é a única espécie humana que sobreviveu até aos dias de hoje?

Porque é que o Homo sapiens é a única espécie humana que sobreviveu até aos dias de hoje?
Porque é que o Homo sapiens é a única espécie humana que sobreviveu até aos dias de hoje?

Durante décadas, a evolução humana foi resumida numa imagem simples: uma fila de figuras, cada uma mais ereta que a anterior, até chegar a nós. Essa imagem é um mito. Durante a maior parte da história do nosso género, partilhámos o planeta com várias outras espécies humanas ao mesmo tempo — e só recentemente ficámos sozinhos.

Uma “era de ouro” para descobrir os nossos primos

A paleoantropologia está a viver um momento de explosão de descobertas, com o registo fóssil e genético a revelar cada vez mais espécies próximas de nós. Algumas eram mais fortes, outras mais pequenas, e há pelo menos uma que deixou marcas permanentes espalhadas pelo nosso ADN até hoje.

Os Neandertais que ainda vivem dentro de nós

Os Neandertais são os primos mais conhecidos, e surgiram há cerca de meio milhão de anos como caçadores extremamente competentes, adaptados ao frio extremo da Europa e da Ásia. Longe do estereótipo de “homem das cavernas” primitivo, tinham cérebros do mesmo tamanho — ou maiores — que os nossos, dominavam o fogo e fabricavam ferramentas sofisticadas.

Nunca desapareceram por completo. Entre há 40.000 e 50.000 anos, cruzaram-se com os nossos antepassados diretos — e é por isso que quase todos os humanos modernos fora da África subsariana carregam cerca de 2% de ADN Neandertal. Somando as diferenças entre indivíduos, cerca de 20% de todo o genoma Neandertal continua espalhado pela população mundial atual.

A espécie que sobreviveu 2 milhões de anos

Se os Neandertais são os parentes mais próximos, o Homo erectus foi o grande sobrevivente do género humano — existiu durante cerca de 2 milhões de anos, dez vezes mais tempo do que o Homo sapiens leva no planeta.

Foram os primeiros a andar exclusivamente sobre duas pernas e, possivelmente, os primeiros a controlar o fogo para cozinhar e se proteger. Na ilha de Java, sobreviveram até há cerca de 100.000 anos — uma longevidade que muitos investigadores continuam a considerar difícil de explicar.

O “Hobbit” com cérebro de chimpanzé que fabricava ferramentas

Uma das descobertas mais estranhas do início do século aconteceu em 2003, na ilha indonésia de Flores. O Homo floresiensis, apelidado de “Hobbit”, tinha apenas cerca de um metro de altura em adulto — resultado de nanismo insular, um fenómeno em que animais de maior porte encolhem ao longo de gerações por escassez de recursos.

O que intriga os cientistas é outra coisa: apesar de um cérebro do tamanho do de um chimpanzé, esta espécie fabricava ferramentas de pedra e caçava animais do tamanho de uma vaca, como o Stegodon. É um dado que complica a ideia simples de que um cérebro maior significa, automaticamente, mais inteligência.

Denisovanos que ajudam o Tibete a respirar em altitude, e um mistério sobre rituais

Os Denisovanos foram identificados a partir de um único fragmento de osso de um dedo, encontrado na Sibéria. Geneticamente distintos de nós e dos Neandertais, também se cruzaram com os nossos antepassados — e é por essa via que as populações do Tibete herdaram adaptações genéticas que ajudam a viver bem em grande altitude.

Na África do Sul, o Homo naledi levanta uma questão ainda mais delicada: apesar de um cérebro pequeno e traços considerados primitivos, há indícios — ainda controversos — de que esta espécie possa ter enterrado deliberadamente os seus mortos em câmaras profundas e de acesso difícil. Se confirmado, isso empurraria a origem de rituais e de algo parecido com espiritualidade muito mais atrás no tempo do que se pensava.

Porque é que ficámos sozinhos?

A pergunta que continua sem resposta definitiva é: porque é que só o Homo sapiens sobreviveu? Não se sabe se foi superioridade intelectual, sorte com o clima, ou simplesmente cruzamento até essas espécies serem absorvidas pela nossa.

O que os dados sugerem é que a evolução humana funcionou mais como um rio com vários braços do que como uma linha reta — linhagens que se separavam para se adaptar a ambientes diferentes e, ocasionalmente, voltavam a encontrar-se para trocar genes.

Não somos uma espécie solitária que conquistou o mundo sozinha, mas o que sobrou de uma família muito mais vasta — parte dela ainda presente, hoje, no nosso sistema imunitário e na nossa biologia. E com novas escavações em curso, é bem possível que ainda haja mais primos à espera de serem encontrados.

Sobre o autor

Fernando Alves

Fernando Alves é professor e editor, com formação em Ciências Naturais e mais de duas décadas de experiência a escrever e a ensinar. Assina na VortexMag artigos sobre natureza, viagens, história e atualidade, sempre com o mesmo cuidado de verificar cada facto antes de o publicar.