Na margem direita do rio Lima, frente ao centro histórico de Ponte de Lima, o Parque do Arnado propõe mais do que um simples passeio ao ar livre. Aqui, cada canteiro, cada eixo e cada espelho de água integram um projeto pensado para contar uma história: a evolução do jardim na cultura europeia.
O som do rio acompanha o percurso, criando uma atmosfera serena que contrasta com a malha medieval da vila, visível do outro lado da margem. O Arnado funciona como uma espécie de varanda verde sobre a história limiana, onde a paisagem se organiza com método e intenção.
Um projeto com intenção pedagógica
O parque foi desenhado por Francisco Caldeira Cabral, considerado o pioneiro da arquitetura paisagista em Portugal. A sua conceção partiu da recuperação de uma antiga exploração agrícola degradada, convertida num espaço público de utilidade cultural.
A proposta de Caldeira Cabral era clara: criar um parque didático, onde o visitante pudesse percorrer diferentes momentos da história do jardim ocidental. O Arnado organiza-se, por isso, em áreas temáticas distintas:
- Jardim Romano, marcado por simetria, eixos rigorosos e uma leitura geométrica clara;
- Jardim Labirinto, evocando o espírito renascentista e o jogo entre orientação e surpresa;
- Jardim Barroco, onde a água, o movimento e a teatralidade ganham destaque;
- Jardim dos Poetas, espaço circular dedicado à memória intelectual de Ponte de Lima.
Esta segmentação não é apenas formal. Representa também o esforço de requalificação das frentes ribeirinhas portuguesas no final do século XX, transformando áreas esquecidas em lugares de fruição pública.
O Jardim dos Poetas e a memória cultural
O Jardim dos Poetas destaca-se pela dimensão simbólica. Estruturado de forma circular, convida à pausa e à contemplação. Mais do que um arranjo ornamental, homenageia a tradição cultural limiana, associando literatura e paisagem.
A poucos passos, a estufa de ferro e vidro — inspirada nas estruturas oitocentistas — reforça essa dimensão histórica. A transparência do vidro e o desenho metálico evocam a época das grandes coleções botânicas europeias.
O desgaste natural do ferro e o musgo que cobre o granito contribuem para uma sensação de maturidade paisagística, aproximando o Arnado dos grandes jardins históricos.
O rio como cenário permanente
A localização do parque é parte essencial da experiência. O rio Lima, que moldou a história económica e social da vila, funciona como pano de fundo constante. Do Arnado avistam-se a ponte medieval e o perfil antigo de Ponte de Lima, frequentemente apontada como a vila mais antiga de Portugal.
Este diálogo entre a ordem geométrica do jardim e a organicidade do rio reforça a ideia central do projeto: a paisagem como encontro entre natureza e intervenção humana.
Um espaço para todas as estações
Ao longo do ano, o Arnado transforma-se com as estações. Na primavera e no verão, os canteiros ganham cor e o parque é ponto de encontro para residentes e visitantes. No outono, a queda das folhas altera a paleta cromática, enquanto o inverno acentua a estrutura geométrica dos espaços.
Para quem visita Ponte de Lima, o parque pode ser complemento natural ao percurso pelo centro histórico, ao Museu dos Terceiros ou à ecovia que acompanha o Lima.
É também um local privilegiado para observar a dinâmica da vila durante eventos como a Feira do Cavalo ou o Festival Internacional de Jardins, que reforçam a ligação da localidade ao universo paisagístico.
O Parque do Arnado demonstra que um jardim pode ser simultaneamente espaço de lazer e instrumento de conhecimento. Ao integrar estilos, recuperar um território degradado e dialogar com o rio, afirma-se como um dos exemplos mais consistentes de arquitetura paisagista contemporânea em Portugal.







