Está em São Domingos de Benfica, a poucos minutos do centro, e ainda assim escapa à maioria dos lisboetas. O Palácio de Fronteira é daqueles lugares que os estrangeiros conhecem pelos rankings internacionais antes de os portugueses o visitarem — o que diz algo sobre nós, e muito sobre ele.
Foi construído no século XVII como casa de férias e pavilhão de caça para D. João de Mascarenhas, 1.º Marquês de Fronteira.
Nessa época, São Domingos de Benfica era campo aberto, a cerca de três horas a cavalo do Chiado, distância suficiente para escapar à cidade sem dela se desligar de vez. Era um retiro — elegante, propositado, desenhado para o prazer.
O Terramoto de 1755 mudou tudo. A residência principal da família, no Chiado, não sobreviveu. O palácio de Benfica, sim.
E foi para ali que os Mascarenhas se mudaram definitivamente, transformando a casa de campo na casa principal — com tudo o que isso implicou: nova ala, varandas fechadas para ganhar espaço, tetos de estuque elaborados. O palácio cresceu, aprofundou-se, tornou-se mais sofisticado.
O que impressiona hoje, antes de qualquer explicação histórica, é a azulejaria. No interior, a Sala das Batalhas narra em azulejo os episódios das Guerras da Restauração, com D. João de Mascarenhas como figura central — memória nobiliárquica transformada em arte mural.
A Sala dos Painéis guarda algo ainda mais raro: azulejos holandeses do século XVII, atribuídos a Adriaen van Oort e ao seu filho Jan, os primeiros registos conhecidos de azulejos exportados da Holanda para Portugal.
Há também salas mais íntimas, onde uma mesa de costura oferecida por Maria Antonieta à 4.ª Marquesa de Alorna convive com o silêncio de quem percebe que está a olhar para um objeto com demasiada história para caber numa legenda.
No exterior, a azulejaria não desaparece — continua. O terraço monumental exibe painéis com as sete artes liberais, cenas satíricas, estátuas gregas. O Tanque dos Cavaleiros, com as suas figuras equestres de inspiração velasquiana, é um dos momentos mais contemplados do palácio.
O que torna tudo isto singular não é apenas a qualidade ou o volume dos painéis, mas o facto de muitos terem permanecido no seu lugar original — expostos ao tempo, às chuvas, às estações — e continuarem intactos.
Os jardins merecem uma visita própria. O jardim formal, desenhado no século XVII à maneira italiana, compõe-se de canteiros de buxo geométricos, um grande lago central e a Galeria dos Reis, com esculturas que celebram a realeza portuguesa.
A Condé Nast Traveler já o colocou no top 10 mundial. O livro The Gardener’s Garden elegeu-o entre os 250 melhores do mundo. É o tipo de reconhecimento que ainda não chegou plenamente a Portugal.
O palácio tem também as suas histórias. Conta-se que, na inauguração, o 1.º Marquês mandou partir toda a loiça usada no banquete oferecido a D. Pedro II — e que os fragmentos foram aproveitados na decoração da capela, numa técnica de embrechados que mistura porcelana com pedras e conchas.
Séculos depois, o 12.º Marquês, Fernando Mascarenhas — o chamado “marquês vermelho” — usava o palácio para reuniões clandestinas contra o Estado Novo, o que lhe valeu interrogatórios pela PIDE. Foi ele também quem abriu o espaço ao público, criando nos anos 80 a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna.
Um palácio com este percurso — caça, terramoto, resistência política, jardins premiados — merecia mais visitas portuguesas. Ainda há tempo.






