Na freguesia de Palmeira, nos arredores da cidade de Braga, ergue-se um dos edifícios mais intrigantes do património minhoto: o Palácio da Dona Chica.
Visto de fora, o conjunto impõe-se pela escala e pela exuberância do granito trabalhado. Mas rapidamente se percebe que não se trata de um palácio no sentido clássico. É, acima de tudo, um projeto interrompido — um edifício que nunca chegou a cumprir a função para a qual foi idealizado.
No silêncio que hoje envolve o imóvel, permanece a marca de um momento muito particular da história portuguesa, em que o gosto pelo romantismo tardio e pela evocação de castelos centro-europeus encontrou expressão num Minho que procurava também afirmar-se através da arquitetura.
Um palácio nascido de um projeto pessoal
O palácio foi mandado construir por Francisca Peixoto de Sousa, mais conhecida por Dona Chica, uma mulher de grande fortuna, ligada ao Brasil, que decidiu edificar em Palmeira uma residência que refletisse estatuto social, modernidade e cosmopolitismo.
Para o projeto foi escolhido Ernesto Korrodi, um dos arquitetos mais relevantes do início do século XX em Portugal.
As obras tiveram início em 1915, num contexto de forte afirmação do ecletismo e do revivalismo histórico.
Um catálogo de estilos em granito
O desenho do edifício revela bem a matriz estética de Korrodi. O Palácio da Dona Chica reúne referências neogóticas, elementos de inspiração manuelina e uma composição geral próxima dos castelos românticos da Europa Central.
A fachada é dominada por torres, ameias, janelas trabalhadas e um uso expressivo do granito, material identitário da região. O tratamento da pedra evidencia uma execução de elevada qualidade, sobretudo nos frisos, nas molduras e nos elementos decorativos.
Ao contrário de muitas construções ecléticas da época, aqui não se procurou apenas um efeito cénico. O edifício foi concebido como uma residência de grande escala, com uma organização interna complexa, hoje apenas parcialmente legível.
Uma obra interrompida
O palácio nunca chegou a ser concluído. A separação do casal e as dificuldades financeiras que se seguiram levaram à interrupção da construção.
O interior ficou por acabar: não chegaram a ser instalados pavimentos definitivos, revestimentos, estuques nem grande parte das infra-estruturas previstas. As amplas salas permanecem como grandes volumes nus, atravessados por luz natural que entra por vãos onde nunca chegaram a existir janelas.
Este contraste entre a solidez monumental do exterior e a incompletude do interior é um dos aspectos mais marcantes do conjunto.
Um século de impasses
Após a saída de Dona Chica, o edifício conheceu um percurso particularmente instável. Ao longo do século XX passou por diferentes proprietários, incluindo entidades bancárias e organismos locais.
Várias propostas de reabilitação foram sucessivamente anunciadas — desde unidades hoteleiras a equipamentos culturais — mas nenhuma se concretizou. Entre entraves administrativos, custos elevados e mudanças de estratégia, o palácio foi ficando suspenso num estado de permanente expectativa.
Esse limbo patrimonial contribuiu para a imagem quase mítica que hoje envolve o edifício.
Um parque romântico que resiste
O palácio integra um amplo parque paisagístico, concebido de acordo com o gosto romântico da época. Lagos, pequenas pontes, grutas artificiais e percursos sinuosos faziam parte do desenho original.
Com o passar das décadas, a vegetação foi-se adensando e o jardim adquiriu um carácter quase selvagem. Ainda assim, a estrutura do antigo parque é perceptível e continua a enquadrar o edifício de forma cénica.
Segundo a tradição local, várias espécies exóticas terão sido introduzidas por iniciativa da própria Dona Chica, numa tentativa de reproduzir no Minho uma paisagem mais próxima da experiência tropical brasileira.
Um dos grandes enigmas arquitetónicos do Minho
O Palácio da Dona Chica é hoje um dos exemplos mais claros de arquitetura interrompida em Portugal. Não é uma ruína medieval, nem um monumento devoluto por esgotamento de função histórica. É um projeto inacabado, marcado por uma ambição estética que nunca chegou a cumprir-se plenamente.
Visitar o exterior do palácio — já que o acesso ao interior continua condicionado — permite perceber o alcance da visão de Ernesto Korrodi e, ao mesmo tempo, a fragilidade de projectos excessivamente dependentes de circunstâncias pessoais.
Entre torres vazias, muros cobertos de hera e salas que nunca chegaram a ser habitadas, o Palácio da Dona Chica permanece como um dos mais singulares testemunhos do romantismo tardio no Norte de Portugal — e como um dos grandes capítulos por resolver do património bracarense.







